terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O salmão


Os dois meninos estavam sentados de frente à TV nova. Ambos tinham o semblante desanimado, entediado, como se tivessem perdido a melhor das brincadeiras.

A mãe, com os cabelos escovados, arrumava a mesa do almoço auxiliada pela nova empregada. Ela estava bonita. O vestido era novo, as unhas estavam bem feitas, a plástica havia escondido a cicatriz do acidente há cinco anos.

O cachorro de pelos macios e lustrosos rosnava para a gata em cima do muro. Não havia mais pulgas nem carrapatos.

O pai chegou com um sorriso de orelha a orelha. Cumprimentou cada canto da casa nova com um orgulho estampado na face. Beijou os filhos e a mulher, afagou o cachorro. Tirou os sapatos, afrouxou a gravata, espichou-se na cama macia. Era um felizardo! Dali a pouco a mulher veio chamá-lo para o almoço.

Sentaram-se os quatro na mesa. A empregada colocou o salmão e o arroz.

- Mãe, não tem feijão? – perguntou o menino mais novo.

- Não, meu filho. Come um pouquinho do peixe.

O menino estava farto daqueles pratos chiques. Queria o arroz com angu de antigamente. Além do mais, aquela TV só passava coisas chatas. Legal mesmo eram as brincadeiras de rua: o pega-pega, o rouba-bandeira, a queimada.

O pai apreciava o peixe com o corpo todo. A cada mordida era um suspiro, uma expressão de contentamento, de felicidade incontida.

- Mãe, posso comer no meu quarto? – perguntou o mais velho.

- Fique conosco, meu bem.

O filho mais velho estava cheio daqueles almoços requintados. Gostava de poder comer a galinha com a mão, lamber os dedos e jogar os ossinhos pro cachorro. Gostava da liberdade que antes tinha pra poder sentar-se á mesa de bermuda e pés descalços.

A mãe mordiscou o salmão, mas logo viu que estava sem apetite. Fazia-lhe bem ver o marido contente depois de anos de trabalho árduo e orçamento apertado. Mas sentia falta das amigas da rua antiga em que morava, sentia falta do emprego que lhe tornava tão útil. Agora vivia em casa e não precisava fazer nada.

O pai terminou o almoço e foi se deitar. Os meninos se arrumaram para ir á escola de rico onde os colegas não gostavam das mesmas coisas que eles. A mãe foi ajeitar a cozinha juntamente com a empregada. E todos terminaram o dia vivendo o sonho do pai.


12 comentários:

Bárbara Matias disse...

Queremos tantas vidas.. queremos tantos mundos que cercamos as pessoas a nossa volta disso.. e ai... isso não só as cerca, mas as aprisiona.

Que sejamos livres e deixemos os outros o serem.
Que nosso sonho não nos sufoque...que nossas vidas e as de quem amamos seja realmente viva... pq buscamos isso!

gostei mto do texto... e vc como sempre sendo mto bom comigo.. inclusive nos seus textos! Eles são um remédio para as feridas!

É bom demais ter você como amigo... não tenho como agradecer...

Bjinhos...

Fernando Locke disse...

e quantos hooje vivem isso? só não percebem por que não sai em jornal! está em todo lugar...infelizmente! posso fazer uma sugestão? achei salmão meio estranho para o titulo, talvez "sonhos" ou "liberdade", sabe, algo que misture a realidade de todos. abraço! ah, viu o blog do ziggy? hauhauahauhauahaua! eu não falo daquele jeito naum! hauahuahaua! abraço!

Fernando Locke disse...

sim, o salmão foi um bom recurso! e quem sabe uma hora podemos bater um papo taum escatologico quanto o qual o ziggy nos fez interpretar? hauahauahuaau! abraço!

Juliana Caribé disse...

E quantas e quantas vezes a gente não vive os sonhos das outras pessoas, né?

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina Mah disse...

Felipe, gostei muito dos seus contos e o nome do seu blog é ótimo! Confesso que tinha curisidade de passear por esse mundo, sempre que o via no blog do Ziggy.
Se me permite, virei com frequencia passear por essas bandas!
Um grande beijo!

Critical Watcher disse...

É tão chato viver os sonhos dos outros.
Cada um deveria poder adentrar nos seus e não permitir que outros vivessem os nossos. A não ser nos caso mais especiais, onde o outro faz parte de nosso sonho.

Abração!

Anne Baylor disse...

É..
O que satisfaz a alma não é o material, mas aquilo que faz a gente se sentir útil e importante. É triste ser protagonista da história dos outros. Bom mesmo é escrever a sua própria história e ser ator principal.

Gostei do que vi.
Venha ver-me.

beijoS.

Ana disse...

Ai que vontade dos sonhos de arroz com feijão...os simples sempre são os melhores!
Beijo!

Gabriela disse...

Interessantissímo.
*batendo palmas*

Tiago Enes disse...

Oi

O Blog tá muito legal!
Bons posts!

Parabéns!

Abraço!


Se puder visite!!!

http://tiagoenes.blogspot.com/

Mr. Ziggy disse...

Meu caro,

As pequenas coisas da vida, as mais simples de todas, são as melhores. E que pena que as pessoas, ao "evoluírem", têm deixado que isso se tornasse passado.

Abraço!