terça-feira, 25 de abril de 2017

Vagão

À luz do meio-dia, um vagão
Que vagava no meio-fio
Meio vivo, meio morto
O andarilho
Que reproduz a opulência da flor
E a luz que lhe atravessa o rosto
É a mesma que pisca dentro do trovão
Com seus anéis nos dedos
O vagão conta seus mil réis
É rico, guardava dinheiro debaixo do colchão
Meio vivo, meio morto
Trabalhara a vida inteira para ser feliz
Sem mal perceber que ela sempre estivera ali
Debaixo do pessegueiro
Enquanto as mariposas sobrevoavam as andorinhas

Despropositadamente  

sábado, 11 de março de 2017

Sabiá

Sabiá parou na marquise
Estufou o peito, aprumou-se
Sacudiu as penas, abriu as asas
Ciscou, bicou o vento
Me encarou lá do alto
Feito um deus
Sabiá me benzeu
Rezou um pai-nosso
E me inspirou a fé
“A fé vem pelo ouvir”
Sabiá cantou pra mim
E a canção dizia que o mau
Ah, o mau teria seu fim
Que o olhar do coisa-ruim
Jamais se fixaria em minha nuca
Sabiá fez um barulhinho
Quase um gemidinho
E, nessa hora, parece até que delirei
Porque sei que ele disse: “vai ficar tudo bem”

E foi-se embora pro seu Panteão.