sábado, 11 de março de 2017

Sabiá

Sabiá parou na marquise
Estufou o peito, aprumou-se
Sacudiu as penas, abriu as asas
Ciscou, bicou o vento
Me encarou lá do alto
Feito um deus
Sabiá me benzeu
Rezou um pai-nosso
E me inspirou a fé
“A fé vem pelo ouvir”
Sabiá cantou pra mim
E a canção dizia que o mau
Ah, o mau teria seu fim
Que o olhar do coisa-ruim
Jamais se fixaria em minha nuca
Sabiá fez um barulhinho
Quase um gemidinho
E, nessa hora, parece até que delirei
Porque sei que ele disse: “vai ficar tudo bem”

E foi-se embora pro seu Panteão. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O menino que sou eu

No olho do furacão
O menino quis ser valente
Empenhou o seu sabre de luz
Bateu continência
Falou que ia à lua com seu chapéu de cowboy
O menino tem sonhos inefáveis
Porque se aninha na cama da mãe
O menino não se frustra
Ele acredita que o mundo é todo dele
Que os céus concederão licença
Para ele pilotar a sua astronave
Que não há monstro que resista
A sua espada verde
O menino acredita mesmo
Que um picolé de chocolate
É o suficiente

Para acabar com todos os males do mundo

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Talvez

João não se dá conta da vida que leva.
Compra o pão de manhã, passa o café.
Lê o jornal, dirige até o trabalho.
Deseja o boteco a semana toda.
Bebe a cerveja no sábado.
Beija a esposa, acalenta os filhos.
João não quer ser artista.
Nem quer ser brilhante.
Quer ter uma vida como qualquer outra.
A verdade, a verdade mesmo.
É que se João visse aquelas azaleias.
Brotando no seu jardim.
E chamando a atenção das abelhas e mariposas.
Talvez.

Talvez João fizesse um poema.