
O rapaz avistou a moça sentada nas areias da praia deserta naquela noite de lua crescente. Aproximou-se para pedir um cigarro.
- Eu não fumo. – respondeu a moça sem sorrir, mas com os olhos mais brilhantes que já vira.
- Preciso largar o cigarro. – comentou o rapaz se assentando ao lado da moça. – É um vício cruel.
- Sou viciada em cafeína. – disse ela abrindo a embalagem de uma bala de café.
- Odeio café. – falou ele.
Ela riu, pela primeira vez ele percebeu o sorriso alvo da moça.
- Os meus avós tinham uma fazenda de café
- Essa gente pensa que tem o rei na barriga. Como acham que podem tomar as terras alheias como se fossem bolinhas de gude? – o rapaz parecia bravo.
- Eles não são má gente. Ocuparam a parte improdutiva da fazenda. Só querem um pouco de terra, todos temos direito, aliás.
- Você não pode estar falando sério! – ele zombou. – Que discurso comunista!
- Tenho inclinação para o socialismo, mas não me envolvo muito. – ela disse e tirou a bala da boca, enrolou-a no papel.
- Vai jogar fora? – perguntou o rapaz.
- Sim. Tenho mania de chupar a bala sem mastigá-la. – explicou e guardou o papel na bolsa.
- Que desperdício!
- Esperdício! – corrigiu a moça.
- O quê? – ele pareceu não entender.
- Você disse desperdício. Na verdade, é esperdício. – repetiu calmamente.
- Ora, não me corrija, sou jornalista.
- E eu sou estudante de letras. Tenho um dicionário na minha bolsa.
O moço riu:
- Você anda com um dicionário na bolsa? Não é um tanto estranho?
- Estranho é você que chega me pedindo cigarro. Eu poderia ser uma assassina.
- Você não tem cara de assassina.
A moça sorriu e olhou a palavra no dicionário.
- Acho que discutimos á toa. Cabe tanto esperdício como desperdício.
E os dois riram. Continuaram a conversa. Perceberam que em muitas coisas discordavam. Ela era amante das poesias e ele não entendia os versos. Ele gostava de balada e ela gostava da solidão do cais. Ele lia livros de auto-ajuda e ela repelia esse tipo de leitura. Ela queria ir pra China, ele queria conhecer os Estados Unidos. Ela queria ter quatro filhos e casar na fazenda, ele não pensava em se casar. Ela ouvia MPB, ele gostava de rock. Por fim, riram de tanta discordância e das demais coisas que nem imaginavam discordar. Antes de se despedirem, passaram um tempo em silêncio vendo a lua sobre o mar e a enseada ao longe. Concordaram que a lua estava esplêndida, o mar era vasto e profundo como o ser humano, as areias eram infinitas como os sonhos e que não havia nada mais curioso e divino do que o relacionamento. Assim, se despediram e cada um seguiu seu próprio caminho.