segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A síndrome dos grilos noturnos


Depois de quase dez anos economizando todos os centavos, resolveram comprar o apartamento tão sonhado. Localização em bairro nobre, garagem pra dois carros, porteiro 24 horas, um luxo. Ela quis mudar as cores das paredes. Fez combinações, pendurou alguns quadros pela sala, comprou enfeites novos, mobiliou tudo de um jeito moderno, bonito. Sua casa, finalmente.


Uma semana depois, entretanto, quando o cheiro de coisa nova ainda passeava pelos ambientes da casa, o tormento se instalou. Numa noite, lá pelas altas madrugadas, um barulho. Cri, cri, cri. Ela tinha pavor de grilo. Imagina aquele bichinho nojento subindo com suas patinhas mais nojentas ainda por seu pescoço? Apertou o braço do marido que roncava ao lado. Esperou alguns minutos pra ver se o barulho continuava. Não veio mais. Mas não conseguiu dormir. E se ele estivesse no teto e, sem avisar, caísse na sua testa. Pior! Na sua boca? Começou a chorar.


- O que foi? – perguntou o marido pra lá de Bagdá.


- Tem um negocinho no quarto, amor. – ela disse, manhosa.


O marido nem deu bola, voltou a roncar. Dali a pouco, a mulher retornou com seu choro. O marido remexeu, fez que não ouviu. Ela aumentou o tom de voz.


- O que foi agora? – ele perguntou, brusco.


- Eu não consigo dormir com esse bicho no quarto. – ela reclamou em tom de lamúria.


Ele levantou, acendeu a luz, percorreu todo o quarto. Cada canto. Ali, atrás do guarda-roupa, olha direito! Revirou o colchão, as cobertas, o tapete. Atrás da cortina, amor, grilo sempre fica atrás de alguma coisa. Nada de achar o bicho. Inconformada, a mulher engoliu o choro e assumiu a derrota. Coisa da sua cabeça. O marido deitou, contrariado. Xingou meia dúzia de palavrões e roncou. Mas ela não pregou os olhos. Nem naquela noite, nem nunca mais.


- Por que tanta olheira, meu bem? – perguntava ele no dia seguinte, sem se lembrar do pavor da mulher com o grilo.


- Não consigo dormir. – respondia ela, seca.


Por fim, decidiu dormir no outro quarto. De nada adiantou. O cri, cri, cri a acompanhava, estivesse onde estivesse. Procurou psicólogo, psiquiatra, até benzedeira. Começou a cochilar em qualquer canto. Enquanto dirigia, na fila do banco, durante o banho, enquanto conversava ao telefone. Tinha o sono maior do mundo.


- Vamos nos mudar amanhã. – anunciou o marido, já angustiado com a situação da mulher.


Deixaram o apartamento e se mudaram. Ela dormiu aquela noite como um anjo. Aliás, dormiu três dias seguidos. Voltou a vida ao normal, teve paz. Começou, inclusive, a rir de tamanha bobeira. Medo de grilo! Coisa mais besta.


Passada uma semana, depois de fazer sua oração, deitou na cama e fechou os olhos. Nada melhor do que dormir. Ouviu um ruído diferente. Não era grilo dessa fez. Julgou ser uma cigarra. Ficou imaginando as asas da cigarra emaranhadas em seus cabelos e o estrebuchar do inseto, cuspindo coisas verdes por todo canto. O pânico voltou a assolá-la.


- Meu bem, – ela cutucou o marido. – acho que tem um negocinho aqui no quarto.


21 comentários:

Mai disse...

Oi Filipe, fico aqui tentando entender o que há em tua escrita que me leva ao mundo que criaste?
Não precisa responder - quero apenas perceber e descobrir-te.
Abraços.

Átila Siqueira. disse...

Felipe, adorei seu texto, parabéns, muito bom. Muito bom mesmo. Aplausos para ti, meu amigo.

Eles vão ter que se mudar eternamente. Talvez ela devesse arrumar uma rede de mosquitos, antes de dormir, uma bem forte, para não passar bicho nenhum.

Mas o "grilo" mesmo está é dentro da cabeça dela. Ela é que é paranóica, coitada. Esses bichos tem mais medo de nós do que nós deles.

Gostei muito do seu texto, parabéns cara.

Quero te convidar para visitar a postagem de lançamento do meu livro, Vale dos Elfos, que acabou de ser lançado. Será uma honra recebê-lo lá.

Um grande abraço,
Átila Siqueira.

*Renata disse...

Oi Filipe!

Tenho várias histórias hilárias com insetos. Tenho pavor dos voadores, em especial as cigarras e as baratas. Esses dias quase me intoxiquei com o "detefon", porque fiquei a 2 metros da coitada com medo de ser atacada, haha!

Ótimo texto!

Abração :)

Karine disse...

Moço!

Lembrei do texto da geladeira, sabia?
Só que gostei mais desse. Fiquei imaginando a cara do marido tendo que revirar todo o quarto, coitado.

Estou gostando muito de te ler em textos como este. Tu estás cada vez melhor, e eu amo estar por aqui. :)

Já te comentei do meu medo de abelha, né? Sério, sou toda comportada, mas se tem abelha por perto, eu D-I-S-P-A-R-O. Acho que por isso não comentarei sobre a moça do texto...
sabe como é, quem tem teto de vidro...hehe...

Um grande beijo!

o Cronista disse...

é o q chamo de imovel grilado!

Camilla disse...

Filipe, quanta saudade dos seus contos. Andei meio ausente por falta de tempo, mas aqui estou.

Na verdade, todos nós temos um grilo em nossa vida, ele sempre nos atormenta e quando enfim conseguimos nos livrar dele, aparece outro para de novo nos enjuriar.

Bjos!

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luifel disse...

Cara,

Eu sempre passo aqui pra ler os seus contos... é um mundo a parte.


A forma como vc domina as palavras é algo surreal. Fiquei imaginando a pobre da moça neurótica, a angustia dela, tive vontade de sugerir q ela comprasse um mosquiteiro.

Abção!

Glau Ribeiro disse...

Filipe,

Eu sempre faço cena com seus textos. Eles sempre tomam vida na minha imaginação. Acho que pela perfeição dos detalhes todos que você dá.

E já disse isso: como eu adoro esse cotidiano contado pela letra sua. Bomdimaisdaconta!

Tadinha dela. As vezes os grilos que ficam na nossa cabeça causam efeitos colaterais graves, que nem psiquiatra resolve!!! Hoje é grilo, amanhã é cigarra.. e o negocinho só vai crescendo... hahaha!

Adorei, Filipe. Como sempre adoro.

Beeeeijo meu!

p.s.: obrigda pela visita. as portas ficam o tempo inteiro abertas pra você, porque palavras suas são sempre boas-dimais. =)

Mary West disse...

Grilos. Se não for o falante de Pinochio eu preciso matar. Eles simplesmente não saber a houra de parar de cantar. Ou grilar... \o/

*Renata disse...

Filipe, deixei um selo pra você no meu blog. Apesar de pouco tempo freqüentando O Mundo de Sofisma, adoro seus textos.

Abraço!

Tamires ________ disse...

Filipe!!

Ei, estou rindo à toa, viu?
Que coisa gostosa de ler esses grilos imaginários, que enfeitaram seu texto com uma simplicidade contagiante.
Ahhh, tudo tão dia-dia, né?
Vi toda a cena... Lembrei bastante de 'Comédias da vida privada'
Uma delicia de ler.
Ainda bem que meus medos se resumem a 'baratas'... os 'grilos' são só da cabeça mesmo.

Muito bom mesmo, viu?

Beijo

Tamires ________ disse...

E ah, obrigada pelas suas visitas... Sempre muito bem-vindas! Mto bom te receber por lá...Bjus

Vanessa disse...

aimeudeus :-)

Srta. Festa disse...

Isso me lembra que eu não consigo pregar o olho quando tem um grilo em casa. Não adianta, fico futricando pela casa até acha-lo. Ô bichinho chato viu.

Tava com saudades de vim ler seu textos, bjos ^^

Mr. Ziggy disse...

Como já dizia meu pai: "Onde é que eu fui amarrar minha égua..." Hehehehe! =PPPP

Lavrador disse...

Escusado será dizer que o seu texto é excelente. Fez.me lembrar um pouco a minha mulher, noite após noite, a queixar-se dos ratos que passeiam no nosso teto em madeira. Três vezes fui obrigado a abrir o plafond em varios sitios para colocar veneno de ratos. Enquanto o veneno atua ouve-se o silêncio da minha mulher e o dos ratos; quando ele deixa de actuar começam as lamurias da minha mulher e o vai-e-vem dos roedores.
Mas que culpa tenho eu dela ter escolhido alugar uma casa ao lado duma senhora que prepara comidas constantemente?

ALF disse...

Ô mas que complicação hein. Que irritação imensa a ponto de impedir o sono da mulher. Apenas um grilo. rsrs
Mas chega a ser engraçado a situação. E mais ainda quando termina.

Tenho um irmão que se irrita com qualquer barulho. seja barulho de gota d'água, de grilo, cigarra ou até sapo. E ele não consegue dormir de jeito nenhum. Teve um dia que ele, de madrugada, foi até o telhado enxotar um sapo kkkk
hehe

Essas crises... rsrs

Texto legal.

Grande abraço

Unknown disse...

eu vivo num apartamento no ultimo andar... e pela madrugada tb ouço o som de grilos dentro do meu quarto... ao meu lado... atras de mim... isto ja desde há 10 anos praí... o mais estranho é q nao ha grilos no meu quarto... ja revistei os cantos todos, os barulhos parece que vêm do nada...

Unknown disse...

eu vivo num apartamento no ultimo andar... e pela madrugada tb ouço o som de grilos dentro do meu quarto... ao meu lado... atras de mim... isto ja desde há 10 anos praí... o mais estranho é q nao ha grilos no meu quarto... ja revistei os cantos todos, os barulhos parece que vêm do nada...

Unknown disse...

Gente eu procuro ajuda ha meses escuto um bicho no meu quarto já revirei o quarto inteiro e não acho, eu não aguento mais essa barulho.