segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Filme legendado


Meus lábios estão mudos, é verdade. Você fala demais, gesticula demais. Não me irrito, mas também não presto atenção. Não entendo de livros nem de metáforas. Seus olhos dizem mais palavras do que sua boca, é estranho. Vou servir vinho pra nós dois. Esse vinho a gente já bebeu em outras épocas. Na casa do seu pai, lembra? Naquele almoço em que você me introduziu em sua família num ritual de sorrisos e abraços mórbidos. Eu avisei que não gostava dessas coisas. Nunca fui inaugural. Seus olhos andam castanhos, o que é isso? Você sempre me falou de tempestade dentro de olhos, maluquice pura, acho que o álcool não está te fazendo bem. Tempestade é esse barulho todo que impede você de me ouvir calado. Largasse seu falatório e suas angústias desvairadas, saberia que em mim mora um anseio de diálogo. Gosto quando trocamos poesias. O moço do palco está tocando Ana Carolina. “Eu quero ser uma tarde gris”. O que é gris mesmo? Não tem nada de escroto, deve ser uma palavra bonita. MPB tem lá seus chamativos. E eu sei que você gosta, sei que, quando chega em casa e sente saudade de mim, põe pra tocar Elis Regina no mp3. Foi ao som de qualquer música dela que eu deixei escapulir o primeiro eu te amo. Na hora eu fiquei bravo com sua reação, ou melhor, com sua falta de reação, sua falta de jeito, falta de... de. Tá, sei que você é travada, não consegue falar essas coisas profundas, você precisa de coragem. Eu estou sorrindo agora? Foi descuido, tava lembrando de uma piada. Não, a piada é indecorosa, não cabe agora. Sim, tô te escutando, você fala demais. Acho que a lavadeira exagerou no amaciante hoje, tá sentindo o cheiro daí? Passei perfume por cima, aquele que você me deu. Acho que qualquer perfume é fraco em mim, tenho índice de fixação baixo. Mas marca de amaciante eu não sei, não sou bom com nomes. Quer mais vinho? Aproveita que a música parou, respira um pouco. Deixa-me falar agora. Conheço suas verdades. Sei que esse falatório todo é necessidade de me ver por perto. Não tem nada de brega nisso, estou sendo romântico, você me ensinou assim. E eu não estou fumando, isso é vapor que sai da boca por causa do frio. Você que anda bebendo demais, larga essa taça. Bonita. Gosto quando você penteia seu cabelo em franja, sua jovialidade transpassa a pele. Deixa eu te examinar só mais um pouco, fica assim, pousada. Sinto, sinto nossas almas nuas. Despidas de intenções pré-direcionadas. Somos espontâneos, nossas brigas parecem piadas. Tem um nome pra isso. Afinidade, eu acho. Isso faz qualquer caminho longo ser percorrido em tempo rápido. As horas voam, as identidades vão se sobrepondo. Você pode me entregar o que quiser, menina, me dizer o que bem entender. Meus ouvidos estão um tanto surdos por causa dessa música alta. É, você tem razão, tem alguma coisa de escroto nessas letras. Sempre dizem de amor? Amor é um velho clichê. Ninguém se cansa disso? Impressionante. Que cigarro você está querendo? Eu não fumo; não escondi cigarro nenhum, você está delirando. Vem cá, deixa eu te selar um beijo. Puxa, caiu vinho no celular, agora ele só vai tocar a música do Titanic, aquela da hora em que todos morrem afogados. Eu sei, essa foi péssima. Quem nunca diz bobeira? Você diz coisas piores. Ah, diz sim! E como diz! Vamos pra casa, já são quatro horas. Vou pagar no cartão. Você quer ir pegando o carro? Tá, vamos juntos. A rua está vazia. Estranha essa sensação de frio na madrugada. Deixa eu subir aqui no meio-fio, será que tenho equilíbrio? Paralelepípedo é o nome disso? Minha língua não consegue falar, deve ser o sono. Ah, não fale em Almodóvar agora, tô louco pra ver um filme dele. Aposto que ele baseou qualquer filme em você. Por quê? Porque sempre desconfiei da sua insanidade. Ai, pára de me bater, você anda violenta demais. Vem cá, deixa eu te beijar inteira. Sente minha língua quente do vinho? Pelo menos assim eu te faço calar. Ei, cuidado com as escadas, você não está bem, está? Vou cobrir você essa noite, prometo. Deita aí, bonita. Sua mão é meu lugar de prazeres. Passeia ela no meu rosto, seu carinho não tem igual. E fica muda, me beija com os olhos, palavras só atrapalham agora. Meus olhos estão fechando sozinho, você está dizendo alguma coisa? Sua voz parece distante.


- Hoje eu me apaixonei de novo, menina. – é o que meus pensamentos não conseguem reproduzir em palavras porque o sono as derruba. Uma a uma.


15 comentários:

Hosana Heitz disse...

Me fez lembrar hoje a noite com meu amor.
Rs.
Abraços!
Bom texto!

nina disse...

Ainda me surpreendo toda vez que venho aqui.
Seus textos são realmente intimistas.

Mai disse...

Oi, Felipe.

Tão doce esse teu jeito de dizer "bonita", "menina"...
Adoro tua linguagem poética.

Escreve mais, escreve sempre.

Abraços.

caicko disse...

E paixão embriaga... muito mais que o vinho. Já estava com saudades daqui. Você continua fantástico, amigo. Abraços

Luifel disse...

Cara,

Gosto de passar sempre por aqui, porque seus contos não são simples contos são poesias em prosa...

De fato o amor embriaga, enebria. Seu texto me remeteu a uma passagem de um livro que li a muito tempo atrás, mas deu branco o nome do autor.

Qdo lembrar, eu falo.

Abção!

Karine disse...

Olá seu moço!
Esta dua doçura nas palavras...
Acredita que entrei tanto nas palavras que cheguei a sorrir, como se fossem destinadas a mim ou como se fosse eu que quem as dissesse.

Gosto disto nos teus textos. Esta capacidade de me deixar entrar... Mesmo quando retratam momentos tão íntimos.

Um beijo!

Junkie careta disse...

Faço minhas as palavras da Karine acima. Esse de fato é seu maior talento: essa capacidade de nos fazer entrar na dança. Esse foi o seu texto com mais gosto de Caio F. que já li por aqui.
Qualidade indiscutível.

Parabéns!


Bom,quando tiver um tempinho, apareça no Spleen rosa-chumbo.Nesse último post, eu falo dos limites entre o real e o imaginário no mundo virtual, falo sobre sentir-se íntimo de alguém pelo que ela escreve,especialmente aqui na blogesfera.

Acho que vc vai gostar.

Grande abraço

Luciene de Morais disse...

Ei, gosta dela! Deixa ela falar... quem sabe não ficará surpreso?
Beijos

http://humanidades-e-afins.blogspot.com/

Camila disse...

Felipe que saudade de te ler!
Sabe, eu não sei o que é "gris".
E apaixonar-se sempre é tão boooommm!
Amei, como sempre!
Beijos

Fernanda Martinelli disse...

tão bom de ler :]
bjo pro filipeee :*

Glau Ribeiro disse...

Ai Felipee,

Esse aqui eu li ontem, quando comentei "O último adeus à poesia". Mas num sei porque, num comentei. Li de novo agora, e tá melhor que ontem. rs.

Ósó: esse teu romantismo arranca um tanto de suspiro e deixa a gente com sorriso no rosto. Deixa sim. Já disse isso aqui um tanto de vez. Porque tira meeesmo. Suas palavras possuem realidade, nada de príncipe em cavalos e nada de pessoas perfeitas, essa é a parte que eu mais gosto. Improvisos.
=)

Beeeeijo asssim, tantão:

=***********

p.s.: obrigada pelas visitas e pelas palavras que me deixa, guardo aqui: S2.

=)

Mary West disse...

Vc é uma raridade. A forma do romantismo naum fez mais rapazes como vc. ;)

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dani Santos disse...

Olá,Filipe... adorei teu blog. A forma como escreves, como descreves tão belamente os instantes, os diálogos. Escreve muito bem sim, como o Thiago havia falado. Bom encontrar tua poesia leve e marcante.
Abraços pra ti.

Amanda Oliveira disse...

Senti um vazio e vim aqui me descobrir. Achei-me.