sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Hoje não tem vez pra bossa


Você sempre disse que gostava de Natal. E que todas as luzinhas piscando pareciam estrelas. Qualquer árvore enfeitada te fazia chorar. Você, indiscutivelmente, sentimental. Fizemos neve de isopor pra simular o clima dos norte-americanos. “Como será um Natal frio?” - você me perguntou como uma criança curiosa.


Sua sala de estar, pronta para os convidados. Não há convidados. Essa noite somos só nos dois. Abriremos os presentes, você já sabe o que vou te dar. Tá ficando muito manjada essa brincadeira. Poderíamos fazer um amigo oculto ano que vem, o que acha? Só eu e você. Pelo menos vai ser mais divertido.


E essa música? Meu Deus, essa música, não! Pára com isso de querer fazer dessa noite um momento deprê. Hoje não tem vez pra bossa. Somos carnaval. Não percebe como você me joga confete com os olhos? E nosso jogo de máscaras, nossas marchinhas de amor. Eu quero é seu colo como descanso. Vem cá, vem, deixa os presentes para depois. Que o vinte e cinco de dezembro seja memorável! Daqui zilhões de anos, as pessoas lembrarão dessa nossa conversa nesse sofá. Eu, com a cabeça no seu colo. Você, com uma taça de vinho na mão, chorando feito boba.


Engraçado. Natal tinha que vir depois de Ano Novo. A gente comemorava a virada do ano e depois trocava os presentes, todo mundo vestido de Papai-noel. Se bem que Natal é depois do Ano Novo, depende do referencial. Lembra das aulas de física? Dona Jurema, quadris largos. Eu lembro dela me xingando de burro, te bajulando por ser a CDF da turma. Como você era chata! Vivia metida no seu arzinho intelectual. “As reações químicas ocorrem através de colisões entre os agregados atômicos...” - você monitorando turma de química. E ali eu enxerguei que você me dava mole. Dava mole, sim, não tem discussão. Não lembra aquela aula, quando você derrubou não sei o quê em mim e veio toda cheia de perdões, querendo me limpar? Eu sei dos seus truques.


Será que todo ano vai ser assim? Nós dois nesse apartamento. Eu no seu colo, você chorando e bebendo vinho enquanto conversamos sobre qualquer coisa só pra poder passar o tempo? O que se faz no Natal? Presente, oração, peru. Depois todo mundo dorme de barriga cheia e com um sorriso de orelha a orelha porque ganhou o celular que tira foto. É celular ou máquina? Pra que isso de juntar tudo numa coisa só? Imagina sair juntando uma coisa na outra, que bagunça seria. Se eu fosse um com você, eu não seria eu nem você só você; seríamos um, que buscaria outro ou outra; sei lá. Uma coisa nunca é duas. Entende o que eu falo? Às vezes eu me acho tão confuso.


Sim, eu gosto do Natal. Tem qualquer coisa de saudade nesse clima. Existe Papai-noel no plural? Papais-noéis? Fica estranho. Eu tinha medo do barbudo, confesso. Quando eu era pequeno, não gostava de ficar acordado pra ver o Papai-noel passar. Acho que eu era o único. E graças a Deus que eu nunca vi de perto esse velho; passo por um, no shopping, e minhas pernas já vão ficando bambas. Pior é você que tem medo de palhaço, coisa mais boba.


Cruza suas pernas, tem alguma coisa machucando minha cabeça. Meu bem? Ué, você tá dormindo? Mas nem deu meia-noite, nem partimos o peru. Os presentes estão embrulhados. Fala mais alto, parece que tá falando javanês. Eu não vou te levar pra cama. Nem pensar. Eu que não vou passar o Natal aqui sozinho, ouvindo essa música. Ah, pára, não ronca! Você roncando perde a beleza. Vou ficar aqui deitado nas suas pernas até você acordar. Quando você resolver abrir os olhos, comemoraremos o Natal.


Só me diz uma coisa: o que eu vou ganhar esse ano?


17 comentários:

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Caroline disse...

Eu AMEI o tom de "comédia romântica"..! Ao mesmo tempo que os sorrisos vão aparecendo, o texto faz um carinho gostoso no coração...

Coisa boa.

Beijo, moço!

Andréia disse...

olá!!! adorei esse texto assim como adoro tudo q vc escreve..

beijokas

Mai disse...

Bem Filipe, depois de tanta beleza poética que li, conhecer este espaço, foi um dos presentes que, antecipadamente Eu já ganhei.
A você eu desejo que ganhe, aquilo que mais "desejar".
Concordo com a Jaya, mas tudo aqui, parece ser como diz o texto: é "descomplicado". Um dia eu aprendo a descomplicar também.

nina disse...

Natal eh uma epoca de melancolia demais e recordaçoes tb.
Adorei tua crônica.

Quase Trinta disse...

Faz dois anos que o Natal perdeu o sentido pra mim... ainda tento procurar o encanto novamente....

l u a . disse...

faz tempo que não venho, que não leio, que não escrevo, que não converso. perdoa.
mas, foi você mesmo que achou a resposta, lá na minha casa. tem tanta entrelinha que entre linha e outra tem espaço pra lá de manhã, menino.
às vezes, a gente erra, sabendo do erro, e não tem medo de fazer o feio.
[cara de pau é a pior coisa. não ter vergonha do espelho é o fim].
mas, está tudo bem. tirando aqueles debates internos que assolam nossa vida, dia ou outro.

confesso que não li. mas, hei de ler. [quando passar a ressaca e vier a calmaria].

Flávia Lago disse...

Adorei o texto...
É a minha primeira visita. Sempre via seu blog em uma ou outra indicação de blogs por ai até que resolvi entrar...
Posso te add no link dos favoritos? Tomarei essa liberdade!
Muito bom poder passar por aqui!
Voltarei mais vezes.
Abraços.

Ana Elisa disse...

Dinâmico e profundo: seu texto avança na leitura em movimentos certos e cada vez mais invasivos. É admirável como você não perde o ritmo e não coloca nem um pé atrás no seu processo de desembrulhar as pessoas. Aliás, belíssima metáfora construída... a idéia dos dois se descobrindo e se desembrulhando como presentes. Sério... fiquei encantada. Ganhei o meu presente de Natal antecipado. =)

Parabéns!

Leila Saads disse...

Um natal, no mínimo, diferente... =] Fiquei pensando no resto da família, o que estariam eles fazendo?
=*

a clara menina Clara disse...

Você me mata, a cada linha, toda vez que venho aqui. E no final do texto, me faz renascer com um sorriso.
Pronto, é isso que você vai ganhar ( e ganhou todos, durante o ano) o sorriso mais sincero que eu puder oferecer.
Tuas letras brilham, Poeta!
Brilham.

Flá. disse...

Filipeee
Primeiro: fica à vontade pra vir pra Guarapari se Fernanda chamar (pq sei q ela chamou hoje ^^), ok?

Segundo, estava com saudade daqui (Estou aqui pensando que preciso voltar com mais calma pra ler e reler outros posts). Ao ler o último post antes deste, fiquei rindo pensando que grilo e cigarra têm sido meus objetos de estudo em 'zoologia 3' (e baratas, besouros e insetos em geral) haha acredite, de perto, numa lupa, eles são mais feios! :P

Beijão! :*
Flá.

ALF disse...

Cara, que gosto de ler esse texto. Recheado com um humor delicado, misturado a um tom extremamente romântico e poético. Coisa boa que só você nos consegue proporcionar né meu amigo.

Está tudo muito bem escrito, e deixa tão envolvente, que praticamente nos colocamos fazendo parte das cenas retratas.

Adorei a maneira doce das sensações.

O natal infelizmente perdeu muito do sentido. É apenas mais uma data comercial...

Grande abraço

:)

Glau Ribeiro disse...

Filipe,

Adorei-dimais seu conto. Me vi com sorriso de canto e por hora sorrisão todo aberto de ler essa comédia-romântica sua. Fiquei aqui me enfeitando com cada palavra, e sentindo saudade do tempo em que natal pra mim era sinônimo puro de festa. Hoje, nem é mais. Não tenho mais romances, nem sorrisos soltos, nem espera por presentes. A saudade desse tempo, eu tenho. E foi bonito ver esse Natal a dois, recheado de confetes que voaram até na platéia.

E xô confessar? Sempre quis natal com neve. Sempre quis.

Beeeeijo, procê! =)

Mr. Ziggy disse...

Se eu fosse a mulher lá, eu pedia pro cara calar a boca e me deixar dormir. Huahuahauha! Que guri mais falante, meu, gosta duma conversa fiada! Huauhahuuahua! E divertido e tal. Gostei. Abraço!

Flávia B. disse...

Eu quero ganhar um Natal no mínimo parecido com esse que vc descreveu...

pedindo com fé, será quem dá?

Beijocas!

Mary West disse...

Um natal misterioso. Aki é sempre uma maldição, vc passa o ano todinho tentando escapar dos familiares, mas no natal é impossivel fazer isso.