quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O último adeus à poesia


Fui navegante em tempos memoráveis. Carregava na vela do barco sua efígie, enquanto escrevia cartas que eram colocadas em garrafas e lançadas ao mar.


Era um gostar romântico, dramático, plagiava Camões e tinha lapsos Shakespearianos. Eu podia jurar que ouvia seu ruído vindo com o vento do mar. A neblina das manhãs desenhava à minha frente o seu entreabrir de lábios e a sua forma de ajeitar a franja atrás da orelha. Era o meu fôlego.


À noite, quando as estrelas vinham como correspondência sua, me trazendo notícias, eu virava trovador. E atirava ao céu algumas rimas que eu ia cantando em meio a lágrimas e soluços. Logo eu que nunca acreditei nessas coisas de amor intenso. Acreditava, dentro do meu equilíbrio, em sentimentos comedidos. Ingenuidade da minha parte achar que as emoções são tangíveis.


Durante as tempestades que tumultuavam meu navegar, me lembrava de suas promessas de amor inteiro. Meu sorriso se expandia pra dentro do peito e a chuva caía em ritmo sereno, como se fosse seus dedos em meus cabelos. Sua voz, quase tão audível quanto o barulho dos pingos no barco, me chamava para uma paz que não existia. Mas eu ia porque sempre fui teimoso.


E hoje eu lhe digo que não vivo como navegante. Que o amor deixou de ser uma alegoria e um drama. Que as palavras deixaram de ser pomposas para surtirem efeitos mais reais do que aquilo que se vê. Que meus passos retornaram para a terra segura onde enxergo não só suas virtudes, mas todos os seus defeitos que me apresentam seu lado negro. Que o gostar não nasce apenas de uma afinidade e de um rebuscar em palavras, mas da cumplicidade certa que mora no contato da pele. Que o namoro não são horas, mas apenas um segundo necessário para o entrelaçar de dedos.


Que garrafas lançadas ao mar nunca chegaram ao seu verdadeiro destino. Não passa de história de filme americano. Não passa de uma falsa esperança plantada em areia.


Confesso, a falta da poesia me fez realista demais.


16 comentários:

Gabriela M. disse...

não vejo problemas algum na realidade. é encantadora. no sonho, você arriscar algo, mas não saberá se vai dar certo de verdade.

tudo tem um lado gracinha;

beijonocê, beibe.

Mai disse...

Oi Filipe,

Teu texto-poético foi como música aos meus sentidos.
E novamente concordo contigo, prá dizer que no "gostar", o cheiro e toque-pele são notas que amplificam.
Lindo isto que escreveste.
Abraços.

nina disse...

Você é um poeta e nem sabe. Nem sempre a poesia se faz de versos. Elas podem ser palavras belas que ecoam na escrita. um beijo.

Juliana disse...

"Que garrafas lançadas ao mar nunca chegaram ao seu verdadeiro destino."

Já joguei tantas coisas ao mar! Talvez até mais do que eu gostaria, mas principalmente palavras! E num lugar especial, joguei um anel que pra mim também era especial, queria que alguma coisa minha ficasse naquele lugar!
Quem sabe o destino que o mar escolhe para as coisas seja verdadeiro, e agente que não perceba??

Johny Farias disse...

Antes a loucura que a realidade,
é nela que tenho abrigo quando o mundo lá fora, o realismo me sufoca.

Bacana o texto cara.

Grande abraço

Flávia B. disse...

Você é um dos maiores transbordamentos de poesia que conheço, Filipe. Digo sem medo de errar.

Tuas palavras fazem mágica.

Beijo, querido.

*Renata disse...

Oi meu amigo!

Último adeus à poesia?
Nem pense nisso, hehe!
Tu és poeta até o último fio de cabelo para escrever textos lindíssimos como esse.

Ótimo feriado!

Vanessa disse...

Ah, procura a poesia em algum cantinho que ela deve estar aí em algum lugar. Esquecida debaixo de um livro velho , ou dentro, ou por cima da poeira que recobre sua capa.

:-)

abraço

Mary West disse...

Naum vivo no meu proprio mundo naum. Apenas, no meu proprio universo. :D

Nanda disse...

Confesso que o exesso de poesia me fez ver amor onde não tinha.

Lindo demais seu texto cara! *-*
Sou tua fã, pode?


Beijos

Mr. Ziggy disse...

Ao contrário do que você disse, estar com os pés no chão fez as palavras mais poéticas, mais maduras e sen aquele romantismo puro e branco demais. E isso é bom, porque no mundo não existe o País das Maravilhas. Existem as Alices. Abraço!
Ziggy

Polly disse...

Rapaz, eu naveguei e oscilei nas tuas descobertas... Papo de louco, amante ou navegante?!? Bem, o fato é que há verdade quando se diz que o amor não é apenas palavra de efeito, é algo que se constrói, e que dói vez em quando...
Viver o amor no dia-a-dia, em meio à concretude de tudo ao redor, é ato de heróismo, é ato poético, SIM, assim penso...

Jaya disse...
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Átila Siqueira. disse...

Tu, meu caro amigo, escreve poemas em prosa, assim como a minha amiga Jaya, que comentou acima. Achei seu texto fantástico, muito bom, e me surpreendi com o final dele, que saiu da utopia e do romantismo, e foi para um realismo, e em seguida para um pessimismo.

Achei tudo isso muito interessante, tantas perspectivas, as mudanças de olhares com o passar do tempo. Gostei muito do seu texto. Parabéns.

Depois visite meu blog.

Um grande abraço,
Átila Siqueira.

Glau Ribeiro disse...

Filipeee,

Jurava que já tinha comentado esse texto seu! Acho que eu li e só fiquei pensando. haha!

Coisa boa viu. Até quando o amor fica realista demais, sem muitas firulas, fica bunito-toda-vida.

E xô contar, que esses, assim mais perto da nossa realidade tiram suspiros como os de Shakespeare, porque a gente pensa em alguém, em um tempo passado, deseja tempos futuros. Num deixa de ser inspirador.

Meu pé anda coladinho com chão já faz tempo, mas vive querendo dar seus pulinhos. hohoho! =)

Beijo procê dimais.

=*

Jaya disse...
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