sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Motel Leblon


Ela acordou com os olhos cheios dágua. Sentiu o cheiro do desodorante dele impregnado no lençol. As lágrimas, involuntárias, passaram a molhar o travesseiro abarrotado de sonhos.


Não havia mais resquício nenhum dele. O cinzeiro, talvez. Foi o que restou: cinzas de um cigarro depois de uma noite promíscua. Ah, como se sentia mal. Tinha se feito vulgar. Encarnou qualquer dona de bordel e esqueceu de todos os ensinamentos bíblicos ministrados pelo seu pai, quando ela era criança. Não teve pudor algum. Foi animalesca, como nunca imaginara um dia poder ser.


E agora se lembrava dos olhos dele. Olhos ausentes, amando outra que não o queria por um motivo qualquer. Percebera que não havia um gostar correspondido. Ela, apaixonada, fazia truque com os dedos, lábios, línguas. Queria atraí-lo sem saber como.


Restos. Havia restos de um diálogo perdido em sua mente. Ele dizendo que sonhava em conhecer Milão, roubar um beijo da Angelina Jolie. E ela ria, feito boba. Ria pra agradar, pra se oferecer. E jogava os cabelos a cada dez minutos. Trocava as pernas, deixando o decote desenhar as coxas.


Foi até a cozinha ainda sentindo o cheiro dele em todos os cantos da casa. Notou os pés imundos. Tal qual a alma. Ele foi embora sem deixar vestígios. O copo da noite anterior onde ele havia bebido água. Agora estava lavado, no escorredor. Ele mesmo fizera questão de apagar sua presença na casa dela. Como se adivinhasse que ela desejaria isso quando acordasse.


Colocou a água para ferver. Açúcar. Pó de café. Sentiu uma pontada no estômago. Um grito vindo de dentro, um pavor que se transformava em onda de areia que subia pelo seu esôfago e arranhava o céu da garganta. Foi cuspindo os grãos. Cada um era pedaço do seu romance carnal, da sua entrega imperfeita, imprópria.


Deveria ter sido donzela. Provar que havia estudado francês, alemão e espanhol. Sabia tocar piano e cozinhava alguns pratos saborosos. Conhecia um pouco de política, dominava a economia e tinha vontade de ser diplomata. Vestia-se bem, tinha estilo, conhecia pessoas importantes. Namorou filho de prefeito, teve um lance com um senador. Fora virgem até os dezoito anos. Amava os pais, tratava bem dos idosos, adorava crianças. Não gostava de futebol, mas sabia torcer.


Todas suas prendas, suas habilidades, seus talentos. Todo seu brio, sua vaidade, seu louvor. Trocados por uma noite de prazeres inúteis, por uma cama velha em um motel de periferia. Motel Leblon. Conhecido nas redondezas. Agora, era bem ali, na sua casa, dentro dela.


Lá fora, um vento gelado. E um vizinho ligou o som. Bob Marley, como era de se esperar. Despejou o café fumegante na xícara e sorveu. Café, para todos os males, espanta o mal-humor.


E ela chorou.


Porque queria um romance.


26 comentários:

Identidades Fragmentadas disse...

A habilidade de transmitir sentimentos, forma única que tens de cativar a alma, continua sendo forte em seu blog. Continue assim!

Andréia disse...

[ palmas ]

Mai disse...

Oi, Filipe.

O incomum está aqui. Quantas vezes se escreveu sobre as questões do amor e do prazer. As dicotomias humanas.
Amor, sexo. Corpo, Alma. Romance,gozo.
Poucas, no entanto com a forma que dás. Esta que acabo de ler. Do cotidiano, das ruas, do hoje, e, ao mesmo tempo, de um outro lugar.

Tu, és raro.

Um beijo é teu.

Caio disse...

Foi-se o corpo, ficaram os olhos. Mas quem lagrimou foi ela. Adorei. Abração!!

Iana disse...

E eis que a claque aplaude. De pé. Muitíssimo bom, senhor, muitíssimo mesmo.

Hélder/Míope disse...

É, quando pensamos que sabemos tudo vem uma parte de nós que não conhecemos.

Muito bonito o texto!

De volta.
Abraço!
;D

Proibida disse...

Eu também quero um! :)

Saudade de ler suas palavras com uma frequência maior.

Beijos

ALF disse...

É nessa habilidade literária que até o vulgar leve misturado a tons românticos fica lindo.


Só tu mesmo pra mesclar as duas coisas.

Ficou bom.

Mas até hoje o que mais gostei foi o "canção". O top.
hehehe


ps: Tem outra festa lá no blog Filipe. Dessa vez é o meu aniversário. Passa lá pra pegar um bolinho. Ando sentindo saudade de sua presença por lá hein...

Boa semana pra ti grande. Abração.

Flá. disse...

E como é fácil trocar a esperança difícil de um romance por uma ilusão fácil de relacionamente qualquer.

Filipe, muito bom ver as suas palavras agora ganhando um rosto de verdade, um sorriso, um jeito! E não só resumidas em uma pequena foto. Repito, muito prazer em te conhecer :)

Grande abraço! :*

raai. disse...

@_@
aaamei cara, você escreve muito bem.
Querer um romance consiste em muito mais do que ele deixar as marcas pela manha, talvez seja romantico apagar os vestigios, depende do ponto de vista, quem sabe ela não o encontra na hora certa? Uma que ela esteja procurando prazer e ele romance?

:D
:*

Mah disse...

Eu choro também, pois quero um romance do mesmo jeito.

Adorei o texto!

Beijo.

Não Somos Apenas Rostinhos Bonitos disse...

Clap,clap, clap!

disse...

nossa, que texto forte. Dá pra sentir o que ela sentiu. ótimo o texto! traz arrepios. amei!

*Renata disse...

Ah, essas paixões não correspondidas nos fazem perder o bom senso. Tudo pela última gota de esperança, fazer com que ele (a) goste de mim ou me enxergue diferente. A paixão é mesmo cega. E garanto que depois da noite no Motel Leblon, ela já sonha com a próxima, mesmo depois de todo esse sofrimento.

T-adoro Filipe!!!

Mary West disse...

é engraçado ver que naum é na adolescencia que vivenciamos essas paixões platonicas. Como humanos, sempre passaremos por isso.

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Camila .:εïз disse...

Ui... como dói se arrepender. Dói mais ainda não encontrar que buscamos...
=**

Bárbara M.P. disse...

Oi Filipe, vim colocar a minha leitura em dia com você, querido..

Juliana disse...

Não adianta uma parte só querer o romance né, e se entregar pra alguem que deseja outra só piora as coisas!
Muito bonito o texto, e muito real! Comigo nunca aconteceu mas já com pessoas próximas... ah se ouvesse um pouco de mulher em todos os homens!

;*

Tiago Júlio disse...

Filipe,

Pego tuas palavras emprestadas pra justificar minha ausência. Já disse isso mil vezes, mas não custa repetir: ler não pode ser automático, e, às vezes, não consigo fugir disso. Com mais calma leio os textos anteriores (o debaixo é muito bom, depois comento com calma).

Tua escrita sempre me encantou, os textos têm mensagens e induzem à reflexão. Tuas histórias dariam boas crônicas de jornal, já disse uma vez.
Sobre a moça, bom... Não me sentiria tão mal se estivesse no lugar dela, por uma série de motivos que não são cabíveis aqui. Mas aí eu teria que ser eu, não ela, então...


Muito obrigado, pela milésima vez, pelos teus comentários e elogios. Tuas análises e interpretações são bem interessantes, fazem ver a dimensão que tem as palavras e o quão subjetivo eu sou (sem querer, certas horas). Sinal de que tá funcionando.
Abraços.

Nina Vieira disse...

Eu peço bis.
E queroum romance também.

Filipe, vc tem razao. Vou escrever a continuação daquele texto.

Mary West disse...

Certeza que em 2009 passo por isso. :D

Avassaladora disse...

É Felipe...
Vc faz um estrago com as palavras...!
Por alguns segundos vc se transportou para o íntimo de uma mulher, para o âmago, para o maios profundo do seu ser...!
E só assim...porque só assim... conseguira colocar tanto realismo
em uma cena tão forte...
em um momento que existe em cada uma de nós, mulheres...!
Momento esse que acabamos vivendo...! Mais cedo ou mais tarde...!

Dani Santos disse...

Pintas uma cena com cores fortes. Com as cores de um dia que nasceu pra ser chorado ou apenas esquecido.

Abraços

Srta. Clichê! disse...

Que ÓTIMO blog!
Bendita época que a insônia resolveu me apurrinhar! Rendeu-me conhecer esse antro de ótimos textos!
Parabéns, amigo.

[Savana levanta-se da cadeira ainda serelepe e saltitante. Vai em direção ao remédios procurar um comprimido de Somalium, na tentativa quase vã de diminuir a euforia (pseudo-euforia?). Ela precisa dormir e descançar um pouco, para poder acordar inteira e suficientemente forte para continuar a ler estes belos textos!]

Abraço, Savana Dantas.

Blog de Um brasileiro disse...

Cara, vc com 21 anos já escreve bem assim? Seus textos são hiperequilibrados e interessantes. Esse texto do Motel Leblon até me arrepiou.
Tem futuro.

Bem, também tenho um blog, se der para dar uma olhadinha e opinar eu agradeço.