sábado, 9 de agosto de 2008

Notas de nós dois



Em co-autoria com a Jaya



Vendo você daqui, sentada na varanda e debruçada sobre as almofadas espalhadas pelo chão, me pergunto de qual galáxia você roubou esses dois astros cintilantes que carrega nos olhos. Sua trança ajeitada no canto do ombro e seu vestidinho de menina-moça fazem brotar em mim um sorriso. É que você me lembra qualquer atriz de cinema. Então você percebe minha visita inesperada e se levanta. Vem cantando e assim me arrasta para um mundo arrebatado de flores e acordes. E me pega pela mão, permitindo-me girá-la na ponta dos pés. O chão também gira, o céu se abre infinito sobre nós dois. Tanta poesia é pintada nos nossos lábios, nos nossos dedos! Parece até que temos o mesmo batido. Você não percebe assim? Tanta sintonia e tanto a descobrir! Você tem uma música predileta? Eu tenho. É essa que sai do nosso peito enquanto dançamos.


Meu espelho, você. Vem caminhando assim, me trazendo o que já é meu, vestindo as coisas com tua presença, descerrando os lábios e me entregando um riso. É como se nesse gesto a alma fosse lhe saindo em notas e transformasse esse solo em dueto. É a dança. Música predileta. Canção de nós dois. Caminha comigo, um pouco? Não solta da minha mão. Nota o debruçar do céu. Escuta as estrelas balbuciando versos. O rio, ao lado, todo cheio de lua. Preparei assim, hoje. É que a cada chegada tua, te inauguro. Bom demais fazer festa em você! Bonito teu olhar fulgurando contra o meu. Coisa tão nossa esse leva-e-traz que vai colando afinidades. Tiro do meu bolso pétalas dos acordes que brotaram daquela primeira vez. Lembra? Você, então, me conta da primavera. E gesticula um enleio todo ingênuo, me fazendo recordar um romance qualquer, do qual você deve ter saltado. Quem te escreveu? Será que sabiam eles o gosto bom de fazer tua tradução? Resolvi musicá-lo, de maneira reticente.


Pra que tantas perguntas, tanto ruído? Fica quietinha, me deixa apreciar esse silêncio que você toca com o sorriso borrado de ternura. Sorriso que desperta em mim uma adrenalina de constelações. Não importa se erramos o passo nessa hora. Já tenho o mundo quando recebo você nos braços e, sem saber onde tocam os meus pés, me encerro num paraíso só nosso, cheio de poesias e afins. É que você tem esse seu jeito faceiro e carrega esse tom de saudade, esse suspiro contínuo de conto inacabado. Sentiu a minha mão gelada, as minhas pernas trêmulas? Sua presença me traz fulgor e acende luz no meu porão de tristezas. Seus gestos são como pluma que massageiam meus ombros tensos e ardentes. A primavera chegou, está vendo essas flores desabrochando? Parecem versos, cantigas, histórias que narramos juntos enquanto ficamos sentados no balanço. E quando chegar o outono, nossas brisas se espairecerão com notas de nós dois. Notas que nasceram de um toque de mãos e permanecem latentes nos olhos. Não parece sonho?


Sonho, sim. Bordado em delicadeza, como se exposto numa banca de flores. Nesse conto fui forjando asas, descobrindo simetrias. Você foi pousando em mim um olhar ensimesmado, distraído, que clareou minhas cores por inteiro. Te entrego agora a fala muda. Dispenso as palavras. Melhor brincar de fazer excursão em você. Não me importo em me perder, não. Assim eu vou ajeitando meu caminho para encostar no teu, pintando nosso mais-que-perfeito. Vai ver é aí onde me encontro. Sem pedir licença, vou te enfeitando em meus cantos. Você desce do balanço, e divide comigo essa falta de gravidade. Numa postura doce, canta para mim as mágicas fórmulas do pólen lunar que a brisa primaveril foi espalhando sobre nós. Canta com essa voz suspirosa, numa harmonia vaga. Já tiro você de ouvido. E aí gente vai acontecendo, mirando o horizonte, costurando o você e eu. Vou furtando um pouquinho das horas, rodando os ponteiros para trás, demorando em você, fazendo coleção dos teus sorrisos - amuletos meus. E quando você estiver de longe, vista-se outra vez de um pôr-do-sol: brilha onde estiver. Leva o carinho meu? Põe no azul. É teu.


Toma também do meu canteiro, das minhas flores que você regou com estrelas. Carrega com você esse meu pedaço que é pra quando minha imagem escurecer na sua mente. Toma meu violão, deles saem as notas e as músicas que fizemos juntos. E toma o meu tormento. Esse que você trouxe quando visitou a minha janela. Tormento bom, mas quero que seja seu também. Prenda-o no pescoço que é pra nossa história ficar sempre no seu peito. Põe no céu. No azul. É seu. É nosso. Todo nosso.

19 comentários:

Polly disse...

Que lindo esse subtexto, as entrelinhas desse encontro, parece que vão se vendo e se amando e pensando todo essa atmosfera de luz e beleza de amor!
Cores imbricadas do amor de dois seres emanando em arco-íris!
Belo, resumindo...

Beijo!

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ALF disse...

Eu sinceramente fico sem palavras ante tanta maestria. Um texto que sublima encantamento e doçura. No fundo parece ter uma sinfonia que baila as batidas do coração, que em seu teor tão puro e romântico, nos maravilha. É um texto tão singelo, como que suspirado pelo coração, como que pintado pela aquarela do céu, dos amores.

Definitivamente, belíssimo.

Abraços

Mary West disse...

Oh puxa que lindo. Quero passar por isso, me deixaste sentimental. ;)

imnotinsane disse...

Belas palavras :) ***

Leila Saads disse...

Quando leio seus textos parece que vem o filmena cabeça... Sabe quando você vai pintando os quadros? Pois é! Senti falta disso! Vou ver o que perdi dos tempo que não passei por aqui!

Beijos!

Mr. Ziggy disse...

Vocês dois juntos formam uma linda colcha de retalhos. É tão linda que até eu me aqueço com tanta ternura... e eu testemunho, compactuo e aprovo. Nem me importei de fundir ficçãov (será?) e realidade. Tormei essa liberdade e debrucei da janela ao lado. É que sou vizinho... e me sinto padrinho também. Meu abraço e meu louvor,
Ziggy

a clara menina Clara disse...

É impressionante isso. É extremamente real e transborda pelos lados.

Iluminou tudo por aqui.

beijo!

Vinícius disse...

Sem dúvida, o diálogo mais poético que já presenciei. Sim, eu não li, eu presenciei. Me senti ali, feliz como os protagonistas, tão cheio de poesia quanto os mesmos...

Não importa quanto tempo passe, uma das coisas que permanecerá intacta - em sua grandeza, em sua qualidade sublime e em sua beleza nata - é a poesia. Encatará gerações, mesmo em face da guerra, da tragédia, do despeito. Crei, inclusive, tão como o Poetinha, que ela salvará o mundo.

Parabéns por essa união poética tão feliz! :)

Clecia disse...

Que lindo! Nossa! Intenso demais! Parabéns! Um abraço e uma ótima semana!

Pâmela S. Melo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pâmela S. Melo disse...

Bonito mesmo é esse teu mundo, Filipe! É bonito e gentil. Gentil porque derrama mel a cada palavra. Goteja as cores mais lindas e perfumadas de todas as fábulas de encanto e fadas.

Eu sei que o arco-íris deve sentir inveja da tua cor, poeta!

Um beijo.

NANDO DAMÁZIO disse...

Um belíssimo texto a quatro mãos (cada um tem duas, né? haha)...
Em perfeita sintonia.

Cara, essa frase que diz "bom demais fazer festa em você" é digna de se tomar nota para saber o que dizer na hora certa!

Mariana disse...

O texto que mais gostei de ler hoje!!!!!!!!!

Foi lindo, leve...

e um encontro invejável...

beijos

Fernando Locke disse...

jaya e lipão. precisa dizer mais? fantástico meus amigos, fantástico.

Ká. disse...

E eu fiquei aqui, babando nas palavras...

Lindo!

Tiago Júlio disse...

Realmente, não tem o que dizer.

Um tanto quanto exagerado, talvez. Mas é proporcional ao sentimento que transborda de dentro dele.

Preciso dessas coisas... Enfim,

Muito lindo, Filipe. Parabéns mais uma vez e agora acrescente aplausos.
Mundo tá precisando de gente assim.

Gabriela Melo disse...

Se não me engano a Jaya já postou esse texto lá...

Ele é lindo...
Me deixa flutuando ainda mais...
bjo

Mary West disse...

Atualiza querido! =**