Carregava nos olhos o cansaço de quem já viveu um mundo. A tez enrugada era castigada pelo sol que lhe piscava agradável todas as manhãs. Os pés descalços iam pisando o chão de pedras, arranhando o calcanhar calejado, trincando, sangrando, doendo. Mas o sorriso balançava no canto da boca de onde, discretamente, ia nascendo uma canção. Seguia subindo o caminho para casa, segurando em uma mão um balde de água que acabara de tirar do rio e na outra um pouco de esperança. O vestido surrado que a mãe fez há cinco anos na velha máquina de costura agora perdeu o encanto. Ficava tão bonita dentro dele, sentia-se donzela. Mas o pano desbotou, o viço da pele desbotou, o mundo foi ficando mais cinza. O marido ainda lhe dizia que era bela, que tinha as pernas bonitas e que seu beijo era como pedaço de céu. De vez em quando ainda pedia o batom emprestado pra vizinha. É que seu marido merecia umas bonitezas. Os cabelos soltos eram varridos pelo vento forte que também derrubava algumas flores das árvores. A natureza pintava-lhe como uma rainha quando algumas flores da ameixeira caiam-lhe na cabeça. E ela sorria encantada com o frescor e com a brincadeira do vento. Seus olhos cansados, empapuçados, denunciavam noites de sono mal dormidas. É que rezava a Deus pelos seus filhos enquanto eles dormiam na madrugada fria da casa onde viviam. Pedia a Deus que cobrisse seus filhos com um véu quentinho e, depois de beijá-los, um a um, deitava-se ao lado do marido. Cochilava e o galo já ia cantando ao longe. Hora de acordar e buscar água. O dia começava cedo. E ela descia ao rio depois de pentear os cabelos. Ia pintando o cinza de todas as cores que encontrava pelo trajeto. E, sem saber, era acompanhada de anjos que tocavam lira. É por isso que ela escutava uma música que vinha, assim, dos ares. É por isso que seu peito trazia aquela inquietude que acomete alguém cheio de esperança. Esse era o seu segredo: fazia do ruído a mais pura poesia.
Eu e a Jaya estamos em Paquetá. Peguem o passaporte e deixem por lá alguns rastros!
24 comentários:
Que texto lindo!!!!! A descrição... me senti assistindo tudo....
beijops.....
Hummm... eu sabia que isso de fazer poesia não era simples assim: é coisa de anjos. Eu sempre soube.
Beije seu anjo por mim :)
Lindo o texto... daqueles que fazem sorrir.
Beijo, moço.
Consegui formar muitas imagens na minha cabeça com esse seu texto, como se fosse uma cena de um filme.
Obrigada pelos comentários tão positivos sobre meu post. Volte sempre! :)
É de uma sensibilidade sem tamanho. Citaste coisas tão simples, mas encantadores, coisas que fascinavam e deixavam ela assim maravilhada e bonita.
Que texto poético, vindo do âmago do romantismo.
Cara, você traz pra gente uma paz incrível
Abração
Como não podia deixar de ser:
Gostei muito, Filipe!
Obrigada pelos 'parabéns' e recebo o abraço como se vc estivesse aqui por perto.
Beijão! :*
Eu acho impressionante como a inquietude e a leveza coexitem em todos nós, inerentemente.
Eu tenho um projeto de blog com esse nome: "leveza e inquietude: a dicotomia em nós"... rsss
Muito gostoso seu texto!
Beijos.
Adorei o texto.Uma prosa poética. Bjos e uma ótima semana!
Ô, Filipe...
Eu consegui visualizar cada pedacinho dessa mulher. Essa lutadora que, apesar de todas as dificuldades, se permite vi-ver a vida do seu jeito, a seu modo de bonitezas.
Engraçado, né? Tuas letras me fazendo realmente viajar e enxergar a personagem assim, limpa e tipicamente brasileira: lição de vida e poesia onde menos se espera.
Poeta é você, meu querido. É você. :)
Nossa que maravilha... vi tudo com perfeição!
Adorei.
Beijo da Cah
=)
Sempre belas imagens...
E até na dor de quem vive um dia de cada vez a sobrevivência do corpo e do espírito, há beleza na beleza subliminar das formas naturais, há beleza na ausência da vaidade exagerada, no cuidado na justa medida do amor... E esses sons que preenchem aqueles que têm esperança são belos sons, e são suaves!
muito bom esse escrito!
Beijo
De novo, esse tom cinematográfico que tu dá aos teus textos deixa eles encantadores.
E de novo, eu consegui imaginar claramente as cenas; as descrições são ótimas e a poesia flui naturalmente.
E outra vez: tu precisas começar a pensar em escrever um livro. :)
Ah, n'outro texto eu falava ao amor.
Obrigado pelos elogios.
Também querooo hahahahaha
beijoo
Também querooo hahahahaha
beijoo
Quase vi! É bonito perceber a poesia de cada rotina, de cada espécie de espaço, de vida ... Não sei explicar, não sei mesmo! Já foi explicado, perfeitamente, no que escreveu.
Um beijo, Filipe!
Uma pessoa que tem a vida como experiência.
Muito bom seu texto.
beijo, Filipe.
Sentir-se feliz na propria pele, foi isso que seu texto me lembrou. ;)
E, inocente, ela nem se dava conta
de que também anjo era: mas penava
(a duras penas) a labuta dos mortais
e nem sabia mais que ainda podia voar.
Felizmente, sua alma de anjo acalentava
a dor diária permitindo que seguisse suas
trilhas (sonoras ou não) de liras...
Abração e uma ÓTIMA semana, amigo.
ALBERGUE MENTAL
http://caioalbergue.blogspot.com
impressionante como você enxerga paz nos maiores tormentos da vida! e como sabe tornar a tristeza tão mais bela do que ela já é! =)
Nossa Filipe!
Você não sabe o quanto isso é agradável ... Saber que umas palavrinhas minhas cairam aí como uma luva. Satisfatório, mesmo! :)
É um prazer deixar rastros aí em Paquetá, pode ter certeza!
Grande beijo.
Lindo, lindo...
Realmente, eu fui tocada pelo teu texto....
Não sei como vc consegue isso, mas me tira do lado de fora e me joga para dentro dos teus textos!rs
Deus abençõe rapaz. E que este teu dom cada vez mais seja estendido.
Bjô!
como eu gosto de seu blog, eu agora estou praticando escrever em português, tenho novo post!!!
abração filipe!!!
Felipe,
esse conto me lembrou o livro "A hora da estrela" da Clarice Lispector. Sua personagem se enquanda na personagem principal do livro, que vivia numa desilusão da vida e se sentia vazia, enquanto o que acontecia com ela era totalmente o contrário. Ela estava "grávida de si".
E quantas pessoas hoje conseguem transformar o preto e branco da vida em cores vivas e alegres?
Beijos...
Bruno, incrível como você descreve coisas, pessoas e situações.
Até as marcas na calçada fazem-se familiar...
Você é bárbaro!
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