quarta-feira, 11 de junho de 2008

Acontecência


Nessa acontecência de fatos inenarráveis, encontro seu olhar pousado em mim. Sinto-me fotografado e nem faço tanta pose. Quem ensinou a esses seus olhos poetizar a minha alma tão laconicamente?

Um dia eu conheci um velho sábio. Disse ele que eu precisava passarinhar pela vida a fora. Que não adiantava eu me prender numa gaiola e receber o alimento das mãos de um ser humano cruel. Foi então que passei a destilar meus versos em cada canto e encontrei seu canto junto ao meu.

E tudo parecia tão juntinho, tão bem laçado que tive medo de desfazer quaisquer nós. Eu tive medo de que a poesia me escapulisse e que eu tivesse que correr atrás dos versos que caíam e não voltavam mais.

Parecia até que íamos desenhando um conto de fadas. Era moderninho. Não tinha nada de realeza nem cavalos brancos ou vestimentas faustosas. Era tudo de uma simplicidade singular. E ia indo, acontecendo, embolando tudo numa coisa só.

De resto, não sobrou nem uma partezinha que não me confundisse com suas coisas. Não parecia alma gêmea, não. Parecia é alma inteira. Duas almas. Uma só. Ou qualquer coisa parecida. Estou confuso.

E assim eu bem aprendi que o encontro físico mora nos sonhos da gente. Não sei quantas vezes peguei o avião e estive ao seu lado, você me abraçando apertado e dizendo que a noite estava boa. E eu todo besta fui colando seu brilho por cima do meu medo. Foi a hora em que os dedos se entrelaçaram para uma despedida sem fim. A saudade ficou num canto da boca e no resto dos olhos. E vai fazendo morada até hoje. Todo dia ela acende uma vela. Todo dia essa constante despedida, esse ar de coisa inacabada.

Nem sei o que foi feito do nosso pacto. Só sei que seus versos me incomodam por inteiro. E vão entranhando minha alma como alimento necessário, deixando-a obesa. Larga sua pena, larga seu papel. Quero ver você rodopiar em cima desse castelo, agora em ruínas, que construímos para nós. Depois disso, sugiro que vá passarinhar por outros castelos. A gente se encontra por aí.

24 comentários:

Flávia disse...

alma única feita de duas... pode algo ser mais completo que isso?

Sabe carícia de pluma aconchegando-se no coração da gente? É isso cada texto seu, para mim.

Lindo.

Beijomeu.

Clecia disse...

OI, Filipe!Que lindo este texto! :) Amei!Gostei desse trecho "Disse ele que eu precisava passarinhar pela vida a fora." Achei belo! Bjos!

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Andréia disse...

adoro ler os seus textos..

beijos querido! e continue postando textos maravilhosos como esse...

Camila disse...

Gostei bastante desse texto.
Bem elaborado e belo!
Me identifiquei bastante com esse trecho: "E eu todo besta fui colando seu brilho por cima do meu medo. Foi a hora em que os dedos se entrelaçaram para uma despedida sem fim. A saudade ficou num canto da boca e no resto dos olhos. E vai fazendo morada até hoje. "
Beijo
=)

Camila disse...

Gostei bastante desse texto.
Bem elaborado e belo!
Me identifiquei bastante com esse trecho: "E eu todo besta fui colando seu brilho por cima do meu medo. Foi a hora em que os dedos se entrelaçaram para uma despedida sem fim. A saudade ficou num canto da boca e no resto dos olhos. E vai fazendo morada até hoje. "
Beijo
=)

Alberto Vieira disse...

Filipe,
um dos melhores textos que vc escreveu, senão o melhor.

Essa parte achei mto poetica e real:

Disse ele que eu precisava passarinhar pela vida a fora. Que não adiantava eu me prender numa gaiola e receber o alimento das mãos de um ser humano cruel.

abração

Ká. disse...

Mas que saudade de passar aqui!
E os teus textos, cada vez melhores!
Granbde bj!

:: Daniel :: disse...

"Eles passarão. Eu passarinho"

Tempos que não passo aqui!

Abração!

Camilla disse...

Nos encontramos quando saímos de nossas gaiolas imaginárias, voamos pelo mundo à procura da nossa verdadeira essência.

Ana;) disse...

Me sinto tão bem lendo você.
Bjuxx;)

Luifel disse...

Kra, gostei muito do texto.

Abç.

menina lunar disse...

tudo maravilhoso, menos as duas últimas frases...

alma inteira? uma alma só? então pra quê outros castelos?

palmas pra essa poesia.

beeeijo

Bárbara M.P. disse...

Rafael, que alegria você ter deixado suas pegadas para serem seguidas até aqui...

Vim para agradecer a delicadeza de comentário no "Cartas" mas quando comecei a ler esse texto percebi que os ventos que lá o levaram - assim tão seguro - foram guiados, certeiros.

"Acontecência" - tão
deliciosamente escrito por você - poderia ter uma assinatura, um registro ou um carimbo com meu nome também, Rafael...

Isso porque também mora aqui uma saudade de vela acesa não mão.
Mas de uma forma suave mesmo. Sem sombras, nem tristeza. Apenas com toda a certeza de que a história foi escrita exatamente como tinha de ser. Tudo certo, tudo em paz.

Querido, uma honra sua visita. Por lá será sempre mais do que bem-vindo.

Um final de semana bem tranquilo,
Beijos
Bárbara

Camilinha disse...

Que romântico!!!
Esse amor desenjaulado, esvoaçante, acastelado!!!


é pra quem quer, porque todo mundo pode!!!


beijos daqui...

Nana disse...

Sem palavras... Somente os olhos cheios de lágrimas... De novo...

Lindo demais!!!

disse...

lindo o texto. Lindo mesmo. Adorei!
=)

disse...

Nossa, o texto anterior conseguiu encher meus olhos de lágrimas!
lindo! Sem palavras!

Critical Watcher disse...

Você é mais arqueiro que eu.
Tem um alvo certeiro!
É ótimo ler você.
Sempre fico pensando, pensando, pensando...
Abração.

Ni ... disse...

Que enfim o (re)encontro aconteça!

Beijo e mais beijos...

a clara menina Clara disse...

"primeiro estranha-se, depois entranha-se"

beijo, seu moço!

a clara menina Clara disse...

"primeiro estranha-se, depois entranha-se"

beijo, seu moço!

a clara menina Clara disse...

"primeiro estranha-se, depois entranha-se"

beijo, seu moço!

Bárbara Matias disse...

Ei Filipe!!

Depois de tanto tempo....

rsrs

Adorei este texto. Pra variar...

Ah...e tava com saudade de lê-los.

bjos