
Não sei o que deu em você que parecia tão descontrolada. Foi me dizendo um monte de asneira, alegando estar se sentindo presa demais em uma relação que só você mantinha. Tentei acolher suas mãos, mas você se afastou e me sorriu desajeitada. Pôs um fim e saiu levando todas as constelações.
Era véspera do baile de formatura e eu não tinha mais par pra dançar a valsa. Lembrei de quando você ia pra minha casa. Ficávamos até quase meia-noite ensaiando os passos que era pra eu não fazer feio. Vez ou outra você me roubava uns beijos e ria faceira, dizendo que assim era mais divertido.
Então a noite do baile seria de plena nostalgia. Eu dançaria com qualquer pessoa, a primeira que me surgisse na frente só para ter uma foto no álbum. E, durante o resto da vida, a foto não teria você. O vazio já me incorporava e seu perfume já sumia das minhas entranhas. Tão estranho perder você.
Todo mundo entrou no salão decorado. A formatura ali e você fora. Não tive entusiasmo. Eu só pensava na valsa. Tomei um drinque. Eu nunca havia bebido antes. Cuspi a bebida e larguei o copo, fui me misturar. As meninas me perguntavam de você e eu só ria e fazia sinal de que o som tava muito alto e eu não entendia nada. Mentira. É que doía.
Alguém anunciou o momento da valsa. Gelei. Senti as pernas enfraquecerem e o gosto de derrota no céu da boca. Fiquei perdido no meio do salão. Uma lágrima tentou escapulir e eu a contive. Homem não chora, dizia meu pai. Alguém me pegou pela mão e eu agradeci.
“Cheguei meio tarde.”, era você que me dizia com um sorriso arrebatador.
“Você está bêbada.”, reclamei.
“Vai me dar bronca?”, e você ria, ria como uma boba.
E a gente dançou uma valsa ridícula. Você pisava no meu pé e me dizia que era pra eu desconsiderar suas palavras da noite anterior. E que você me amava e me queria pra sempre. Eu falei que você dizia coisas bonitas quando ficava bêbada e você soltou um palavrão. Apertei-a forte contra meu corpo e senti seu perfume voltar pro meu paladar. A valsa tinha seu gosto. E eu dancei suas notas.
“Preciso voltar, não estou com traje adequado.”
E então você me deixou no salão e foi cambaleando pra fora. Lá na porta me mandou um beijo que veio meio torto; sorri. Você estava linda naquela noite.
*O Blog está de férias. Retorno de textos inéditos em Agosto. Até lá!