domingo, 26 de outubro de 2008

Conto policial (parte 2)


Por Jaya Viana


Ao redor do corpo da moça de vestido estampado, que agora sangrava o vinho encarnado de um amor não correspondido, o ar inerte da recém-viúva. A viúva que vira todos os passos daquela moça desde que os primeiros amarelos de sol adentraram as fendas do seu lar. Mantivera seu silêncio enquanto atravessava a penumbra da casa com seus passos de fantasma. No dia anterior, escutara uma conversa do marido ao telefone, dizendo que não queria ser perturbado e que prezava seu casamento, apesar das possíveis crises.


A moça de vestido estampado carregava um ar de mulher fatal. Mulher fatal, pois bem. Num surto psicótico, após ouvir que não poderia se alimentar de sua paixão pelo outrora peixeiro, na noite anterior, resolveu que ninguém mais seria merecedor do olhar afável daquele homem. No êxtase de sua obsessão, planejara tudo. Enquanto o filho mais velho fechasse a peixaria, ela, em seu vestido, permaneceria paralisada atrás daquele freezer maior. O cheiro de peixe era insuportável, mas a idéia de não ter o carinho do peixeiro era ainda mais.


Tendo arquitetado seus movimentos, tão logo amanhecia, retirou com cuidado o ferrolho da porta do estabelecimento, que dava para a sala de estar da casa da família. Sabia onde estava guardada a arma. Pegou para si. Carregava um ar febril a cada gesto, quando ouviu o caminhar do homem em direção à porta da rua. Jogou sua cabeleira loira para trás, destravou a arma, e no primeiro passo que o senhor de ar gentil deu para fora da casa, a moça de vestido estampado puxou o gatilho. Dois tiros foram suficientes. O estrago era notavelmente irremediável.


Ao se dar conta da dimensão de sua ação desgovernada, olhando com seus olhos de lágrimas, pôs-se a gritar. A então viúva, que acompanhara tudo em seu silêncio, teve o cuidado de retirar a arma esquecida na mesinha de centro, e guardou de volta na estante. Aconteceu assim. Testemunha não existiu. Exceto pela mulher séria, que carregava sua mudez. A viúva que, secretamente, já não enraizava o gostar pelo pobre homem que agora jazia na calçada.


No entanto, desnorteada com a reação da moça de vestido estampado, que buscava culpar alguém na procura desvairada pela arma que não encontrava, a mulher se fez aflita. Num ato impulsivo, alcançando a arma, atirou cegamente. O projétil atingiu de raspão a moça, que caiu desfalecida, em choque.


Estava formado novo alvoroço na vizinhança. Fatalidade, destino, absurdo - comentavam alguns. Tentavam sem sorte montar o quebra-cabeça daquela história despedaçada. A paz do bairro pacato havia sido abalada de maneira cruel. O peixeiro, homem bom que era, não merecia ter provado desse infortúnio. No meio de todo esse burburinho, sem que ninguém percebesse, protegida pelo cansaço da multidão, a viúva, em sua pose de fantasma, evacuou do local carregando apenas a lembrança daquele dia irreparável.


A manhã escurecia, e as folhas daquele outono se eriçavam no ar, parecendo se desvencilhar do som das sirenes da polícia e da ambulância que chegavam, tardiamente, ao local. O tempo adquiria um aspecto fúnebre. O céu havia baixado, como se dessa forma ajudasse o transporte do azarado peixeiro aos seus domínios.


A moça de vestido estampado, realizadas as perícias, foi levada ao manicômio, terra de corações incompreendidos. A viúva fugiu com o português da padaria em frente - que nem tinha entrado na história.


14 comentários:

Flá. disse...

:) boa jaya!
Coincidentemente ontem mesmo li um pouco do seu talento no blog da menina das letras vermelhas...e que surpresa boa foi ler-te novamente aqui, no mundo de sofisma.

Um abraço,
Flá.

Filipe Garcia disse...

Que doidera isso de você enfiar um moço da padaria na história!

Taí, gostei de você escrevendo conto policial. Apostaria em você para a nova Agatha Christie, rs. É verdade, Jaya, suas descrições, a forma como você envolveu a narrativa, preparando cada detalhe e cada cena foi de tirar o fôlego. E o final, parecia até o descer da cortina de uma peça teatral.

Bravo!

Fernanda Martinelli disse...

Filipe, acredita q qd subi as escadinhas do Bahamas, eles fecharam? Assim, na minha cara?! O.O
mas consegui superar o trauma, e decidi comprar leite mais tarde na roubos e furtos msm.. :] hehe
Bjo!

Nathália von Arcosy disse...

Excelente!!

valeu a pena esperar... não é que ninguém estava esperando pela mulher do vestido estampado!! E o português da padaria deu o toque final na história. Ótimo.

ALF disse...

O fim, de fato, não surpreende, mas mostra um pouco da face tão real que se aniquila pela presença constante da macabra mente humana na vida. A maneira teatral como tudo se desenrola, a emoção das personagens envolvidas. Perfeito. tudo em sã harmonia. Um conto daqueles que entreabrem feridas de uma sociedade abarcada com falsos sentimentos, e que acabam afundadas na soberba pessoal.

Não há mais o que falar. Fora o fato de que adorei o padeiro da frente ter entrado na história.

l u a . disse...

a sempre dôce jaya.

adorei.
(aliás, nós duas acertamos, somos incríveis.)

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Flávia disse...

Nossa, foi a moça de vestido estampado??

Eu quero escrever um final também!! :D

Beijos!

Leila Saads disse...

Um coração partido, quase sempre, se acha no direito de partir corações alheios. Uma coisificação do objeto amado. Um sentimento de posse que parece constante. Ainda bem que poucas vezes essa possessividade resulta em gestos extremos como o desta viúva.
Gostei do texto, em breve volto para ler o início da história e entender esse amor tão avassalador.

Beijos!=****

Karine disse...

Ta aí Jaya, tb gostei de vc escrevendo neste estilo!
Saudade de te ler...!

Grande bj aos dois!

Mariana disse...

Uauuu.... adoro leituras que nao te deixam perder nenhuma linhaa....

beijoss

Glau Ribeiro disse...

Jaya e Filipe,

Queridos meus!

Dupla mais perfeita, eu nunca vi. Tá bom, vai. Carol e Jaya também formam outro dueto perfeitamente sincronizado. =)

Adoooooooorei o Final, Jaya.

E que lado gostoso esse seu de escrever contos policiais. Aliás, você escrevendo sempre é gostoso demais né, trem fofo meu?

Eu gostei muito desse final trágico, de amores incompreendidos misturados com loucuras, e nem esperava que fosse a moça do vestido estampado. Por isso foi ótimo. Finais inesperados, são sempre aplaudidos de pé, do "jeitim" que eu tô agora.

\õ/ \õ/ \õ/ \õ/ \õ/ \õ/

p.s.: Ela tinha que ser loira???? Aaaaaaah! kkkkkkk

Beeeijo!

Vanessa disse...

Excelente!

Rem.: K. disse...

E ele escreve tudo sobre tudo! E faz isso muito bem! Parabéns pelo blog e pelas postagens!