domingo, 25 de maio de 2008

Garçonete em Paris


Lá está ela com seus sóis, um em cada olho. Não consigo ajustar muito bem o meu binóculo, mas percebo nela um semblante triste. Triste até demais. Ainda assim, ela mantém qualquer resquício de ternura que se espalha pelos tapetes da sala e se esparrama no sofá de couro marrom.

Ela dança ao som de uma música imaginária. Deve ser louca, deve ter perdido o namorado. Devo ir consolá-la? Posso chamá-la pra minha casa, oferecer um drinque, um sorriso, um abraço sem segundas intenções. Mas sua tristeza me parece tão pesada que começo a escorregar pra debaixo da minha janela e perco o equilíbrio. Levanto e ela não está mais na sala e nem coreografa sua dança.

O cheiro dela fica nas minhas entranhas. Meus cômodos se enchem da presença dela e tenho vontade de saber de qual matéria ela é feita. Talvez seja feita da mesma matéria dos sonhos. E ela tem tanto jeito de garçonete! Aposto que serve os clientes em um restaurante de luxo. Sim, porque ela tem ar de dama francesa. Os clientes a secam com os olhos. Ela é bonita, tem o corpo da Brigitte Bardot nos anos 60. E tudo isso ela ignora porque gostaria que vissem o quanto ela sabe sobre Bolsa de Valores. É estudiosa e só não prestou vestibular porque não tinha dinheiro pra pagar a faculdade. Mas ela gosta de ler os jornais e comprar livros da Agatha Christie. É uma moça misteriosa e poderia, muito bem, ter matado dois ou três amantes, planejando um crime perfeito.

Ela aparece de novo. Ajusto o binóculo e flagro o sorriso insistente no rosto dela. Algo sobrenatural parece ocorrer dentro dela. Ela começa a rir como se ouvisse uma piada. Suas gargalhadas a fazem dobrar sobre si mesma, apertando a barriga e fazendo um gesto de “pare com isso” com a outra mão. Mas não existe mais ninguém na sala. Deve estar louca. Deve ter se decepcionado consigo mesma.

Por fim, ela se deita no sofá de couro marrom como quem deita na cama de um bordel. Assim ela perde sua pose de dama ou de princesa e me lembro das prostitutas de Paris. Com um suspiro prolongado, ela fecha os olhos e apaga toda a fantasia restante em mim.

O binóculo é deixado em cima do birô e minhas pernas me levam ao meu quarto escuro, lugar de sonhos. Durmo e sonho com ela acariciando meus cabelos. É uma moça bonita essa garçonete.

27 comentários:

Cinema da Vida disse...

Ai ai... a solidão é um dos meus melhores fantasmas.
Quem nunca se sentiu como esta menina, hum?
Abraço,

Laysla Fontes. disse...

Oi Filipe!

Realmente, se não soubermos manter o tal equilíbrio entre esses 'eus', torna-se mesmo uma perdição. Ainda mais quando 'eu não sei na verdade quem sou'. Concordo contigo! Gostei muito do seu comentário. É como eu disse a uma amiga de Blogger: os comentários sempre dão um certo complemento aos textos!

Li sua postagem 'Nossa música que não acaba' e, sinceramente, me encantou. É doce a maneira com você escreve!

Um beijo! :*

Juliana Caribé disse...

Engraçado, o texto que postei hoje também se passa em Paris... =) (transmimento de pensação...)
Lindo, Lipe. Me lembrou, em alguns momentos, de Amelie Poulain. Já assistiu?
Eu adoro vir aqui e te ler, porque seus textos, além de serem muito bem escritos, são ricos e trazem à minha mente milhões de imagens bonitas.

Beijos.

imnotinsane disse...

Essa maldita solidão...
Lindíssimo o texto...
A descrição que ele faz da menina... Muito bom ***

Nanita disse...

Esse seu texto me fez lembrar o livro Onze Minutos - Paulo Coelho.

Eu já me senti como essa menina algumas vezes , mas creio que não tinha ninguém a me observar ao longe imaginando o que se passava na minha cabeça.

Gostei muito do texto. :*

Camilla disse...

É na solidão que nos encontramos e tentamos encontrar uns aos outros.

Anônimo disse...

A propósito de Agatha Christie, convido a todos para conhecerem um blog recém-lançado sobre a Dama do Crime:

A Casa Torta: O Mundo de Agatha Christie
http://acasatorta.wordpress.com

Um abraço.
Tommy Beresford
http://cinemagia.wordpress.com

Leila Saads disse...

Suas personagens são sempre tão apaixonantes. Até imagino você as criando, pensando-as nos mínimos detalhes.

Beijos!

Clecia disse...

Oi,Filipe! Tudo bem? Fiquei muito feliz com a sua visita no Meu Mar Azul. Bom que tenha gostado do meu cantinho. Aqui estou para retribuir a visita e dizer que vou te linkar, ok? Gostei muito do seu espaço.Um abraço e boa semana!

Menina Bonita. disse...

Adorei os detalhes.Tenho adorado tudo que leio por aqui.Tão sem igual,tão encantador.Invade a alma.Assim como a solidão da moça.


:*

Michele disse...

Filipe, esse sonho começou bem antes de se fechar os olhos. Começou ali, nos momentos entre adivinhar com quem ela falava ou onde trabalhava. Parece-me mesmo bonita a moça, sofisticada, elegante e tudo mais. Acho, na verdade, que lhe sobrava o costume de falar consigo mesma e rir dos seus prórpios erros. Muito otimista ela. Mas sabe que a imaginando assim no sofá sinto uma quase melancolia no ar? E é uma tristeza de saudade, dor de falta, sabe? Talvez eu esteja imaginando tanto quanto quem a observou!

Um beijo, moço!
Boa semana!

Gabriela disse...

Essa garçonete desse ser mesmo uma mulher encantadora para fazer com que alguém esqueça que está em Paris...

Bel Bbel disse...

Talvez ela soubesse que estava sendo observada... E isso de certa maneira a empolgava mais.

Flá. disse...

:)
me lembrou o filme 'um beijo roubado'. gostei! as usual...
bjão felipe ;*

Fernanda Martinelli disse...

gostei da parte da bolsa de valores, filipe :P
saudade de vc jah :*

Flávia disse...

Tão real, tão deliciosamente escrito, que pude ouvir a risada da moça...

Lúdico e sensual. Como vc faz isso?

Beijos!

Lúcia disse...

Fiquei aqui imaginando a dança sem música e sem par da garçonete... delícia de texto, embora me traga uma sensação de algo que foge, que não está mais lá, mas que ainda dói...

Ah, adorei a foto do Quebra-Nozes do último post! Vou roubar pra mim!

E sobre odiar relógios, também os odeio às vezes... apareça lá pra ver o texto que tu me rendeu!

Beijos!

T disse...

Ficar na dúvida ou na vontade é muito difícil. E sério, eu adorei o texto. Quem sabe um dia os meus textos fluam tão facilmente quanto parece que esse fluiu.
A foto completou o post lindo.
Parabéns!
Fica bem

Gabriella Orlani disse...

tão... real e bonito.

Luifel disse...

Ah, a bendita solidão. A luta contra ela é tão humana quanto a busca pela felicidade.


Abçs kra!

NANDO DAMÁZIO disse...

Estou seduzido pelo feitiço dessa garçonete !!

a clara menina Clara disse...

eu gosto de amores calados, eles falam tanto.

beijo, seu moço!

Maria Fernanda disse...

O que dá para imaginar por detrás dessas tuas linhas é fantasiadamente delicioso.

vivi goodgirl disse...

GOSTEI BASTANTE DESSE TEXTO..
PARABENS...

sozinha, mas conseguia rir como ninguem...
talves estivesse apaixonada pelo seu proprio eu...

:: Daniel :: disse...

Nada como uma bela janela indiscreta...

Abraço!

Dominique disse...

O texto é belo, a parte da garçonete é depreciativa. Acho que nunca uma garçonete que trabalha sei lá quantas horas por dia teria como ter "ar de dama francesa". E mesmo que fosse apenas uma garçonete, a beleza estaria em sua simplicidade e mistério e não em sua função tão desmerecida.

Sei lá, o texto realmente dá um quê de interesse pelas janelas espalhadas pelo mundo, como se pudessemos partilhar de outros "mundos" além dos nossos, mas seja mais complacente com as moças. Às vezes, o único problema dela era um cara que passou por sua vida e a fez se sentir triste. E rir talvez seja apenas uma forma de espantar fantasmas.

Mas deveria ser implícito jamais permitir quebrar uma ilusão mesmo que a moça mude sua "pose de dama", pois é a ilusão que torna poéticos os textos mais simples.

Abraço pra ti, Filipe Garcia!

Mary West disse...

Bonita e fascinante. ;)