
“Nossa casinha pequena parece vazia sem o teu balé
Sem teu café requentado, soldado de chumbo não fica de pé.”
O Teatro Mágico – A Bailarina e o Soldado de Chumbo
E até parece mágica quando vejo você vindo requebrando lá do portão. Depois do seu trabalho cansativo, ainda traz no rosto um sorriso que acende todas as estrelas no céu. Entra em casa e, junto com você, um milhão de borboletas azuis. Então eu paro assim meio bobo e fico olhando sua beleza.
“Vem cá, me dá um abraço!” você pede sorrateira.
E eu corro obediente e magnetizado. Você me aperta contra seus seios e seu corpo deixa escapulir aquele perfume secreto que vai alfinetando cada canto meu. Se algum dia duvidei ser possível me embriagar de poesia, hoje já não me resta essa dúvida. A música surge e vem sendo trazida nas asas de uma borboleta. Seus pés começam a girar sutilmente e eu deixo você me levar sem muita escusa.
Greensleeves é o que toca.
“Você sabe que música é essa?” você me pergunta com a voz embargada de um choro contido.
“Sei não.”
“É uma canção folclórica inglesa.”
“Alas my loue, ye do me wrong,
To cast me off discurteously :
And I have loued you so long
Delighting in your companhie.”
O nosso chão parece bolhas gigantes e o nosso teto um céu pintado das cores do crepúsculo. Eu tento ocultar meu medo que você percebe de cara.
“Não tenha medo, nossa música não acaba!”
Diante das suas palavras, deixo meus olhos se fecharem e me solto de seus braços. E vejo-me caindo de um precipício infinito. Sem seu abraço, sem os seus encantos eu não existiria naquele lugar.
E nem parece mágica quando vejo você vindo requebrando lá do portão. Nem parece porque ela já faz parte de mim. Sei cantar o folclore de cor.