terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Da dor


A gente sofre por tanta coisa. Sofre porque algum parente querido mora longe, sofre porque sente falta de um amigo que mudou de país, sofre com a briga constante dos pais, sofre porque não consegue encontrar o verdadeiro amor e sofre porque já perdeu as esperanças de encontrá-lo.

Há pessoas que gostam de sofrer mais. Sofrem porque a Internet está muito lenta (pra que serve essa banda larga, então?) ou porque perdeu o capítulo da novela em que o mocinho, finalmente, beijaria a mocinha (que raiva! Agora só vou poder assistir no Vale a Pena Ver de Novo).

Outras pessoas sofrem com motivo: alguém doente na família, uma situação financeira difícil, notas vermelhas no boletim, chefe insuportável, sogra implicante.

Alguns (senão todos) desses motivos podem ser contornados. Difícil é quando o sofrimento nasce de dentro da gente por uma razão desconhecida ou até conhecida, mas incontrolável. Lidar com a dor é algo comum. Não há ser humano que não experimente uma dor sequer. O problema passa a ser lidar com ela, eliminá-la.

Os terapeutas estão com as agendas cheias. As pessoas precisam de ajuda para serem curadas de sofrimentos. O mundo dos lobos, onde só sobrevivem os mais espertos e os mais talentosos, massacra os cordeiros que, não por culpa deles próprios, se portam de maneira diferente.

Resta ao tímido marcar uma consulta e tentar se livrar dos seus medos e das suas limitações para poder conseguir se expressar em uma entrevista de emprego. Cabe ao solitário sentar-se no divã e buscar uma forma de alimentar seu lado social; as empresas exigem pessoas dinâmicas que saibam trabalhar em conjunto. O carrancudo deve sorrir mais, o extravagante deve se conter, o sentimental deve manter os pés no chão, o advogado deve entender de acrobacias e os médicos de súmulas, a aeromoça deve ser magra, bonita e falar javanês, e por aí vai. Padrões. Fôrmas. Rótulos. Há maneira certa para tudo. Não há mais a liberdade para viver ao seu modo. Existem cobranças e um mundo povoado de pessoas com o dedo em riste na sua direção.

Não me espanta ver tanta gente sofrendo da alma. Sofrendo porque a alma é oprimida, não consegue se libertar em meio a tanto caos.

Ás vezes me pergunto por que escrevo. Escrever me liberta. Faço um vôo rasante sob meus sofrimentos, coloco-os em ordem, espaireço. Não sei que poder de cura tem as palavras, mas faço uso delas. Para quem não tem por onde começar, eis uma dica: rabisque qualquer coisa num canto de papel. Aos poucos a alma vai ficando leve; deliciosamente leve.

7 comentários:

Mr. Ziggy disse...

Então, primeiramente vou responder ao seu comentário no blog. Sem dúvidas, percebes que o que foi dito lá é fruto de idealizações minhas, mas que, se reparares bem, existe algo bíblico na segunda parte do texto, que é que me importa.

Não creio que meu comentário que fiz no seu texto anterior sirva pra mim, pois, em momento algum, afirmei que vida entre marido e mulher (amor na prática) seria algo puro e leve. No texto falo de uma noite fictícia e dela, parto para o geral. Do particular (fictício) para o geral (ideal). Contudo, não excluo a minha ciência de que as adversidades virão e aproveitei também pra dizer de alguma forma que me preocupo em lidar com elas.

Foi só isso. O texto não prega amor puro e ideal. Ele afirma que existe sim esse amor, com bases bíblicas, mas que esse amor deve ser capaz de estar acima de adversidades, porque algo foi ligado na terra e nos céus.

A dor, como você disse aqui, faz parte. E isso está fora dos parâmetros idealísticos (existe essa palavra?). O que se encontra no que tenho como melhor (ideal) é SABER LIDAR com a dor/adversidade.

Sugiro que releia esse trecho:

"Bem aventurados somos nós, que diante d’Ele, ligamos na terra algo que hoje é ligado também nos céus. Juntos, sabemos que, APESAR DAS ADVERSIDADES, podemos lutar e construir um trajeto a cada dobrar de esquina. Foi-nos dada a graça de a cada alvorada despertarmos e dizermos “Eu te amo” do jeito mais simples e piegas que poderia até provocar o riso nos outros.

Só sei que, quando a olho, NÃO CONSIGO ME ESCONDER DE MIM. E todo esse strip tease, no deslizar dos segundos, basta... basta que eu a tome nos braços, honre, ame... por toda a eternidade."

Bem, não quero me justificar, apenas responder ao seu comentário.

Quanto à dor, ela faz parte. Sentimos dor e cabe a nós saber lidar com ela, não se prender a ela, ainda que às vezes seja demasiadamente difícil.

Seus textos têm uma leveza que não consigo encontrar nos meus. Se um dia conseguir dosar mais as palavras, ser mais econômico, como és, chegarei a um equilíbrio "literário". Ou pelo menos assim espero. Todavia, confesso que dessa vez achei que poderias ter ido mais fundo, você tira isso de letra com essa sua sensibilidade que poucos tem.

No mais, continue escrevendo, spsois dar vazão às palavras nos aperfeiçoa enquanto artistas, bem como tem seu caráter terapêutico também.

Super abraço! Volto sempre. Hehe!

a clara menina Clara disse...

Me perguntei um dia porquê escrevia, a única resposta foi rpa esvaziar a turbulência que está/estava/estará dentro de mim. E alivia bastante, a alma fica "deliciosamente leve".
Quanto à dor sou um pouco nietzschiana, acredito que na história do caos dentro de si e tal - claro que em demasia o mundo transforma-se em um lugar inabitável,a aquarela desbota.
É bem verdade a quantidade de rótulos que nos jogam, mas também acredito que ainda há liberdade pra fugir deles, eu pelo menos tento. Liberdade,essa palavra me encanta e eu consigo traduzí-la nas mínimas coisas, nos mínimos detalhes, pode até paracer meu clichê,mas é verdade.
Escrever me liberta.

Guilherme Côrtes disse...

acredito que é um devaneio se ater a crença de que solidão se rescinde a nossa situação a um estágio privilegiado. não solidão de si, mas de alma como essência.
tem gente que culpa a vida por não saber vivê-la, um erro de quinhão doloroso, talvez, culpar a si próprio pelo erro seja ainda mais difícil... arriscar não é sinônimo de coragem (arriscar ser feliz), mas de entendimento, acho.
Ainda que haja dor, acredito que ela nos mova para outros lugares. o fim é aquilo que está completo, logo seria um recomeço.
obrigado pela visita no meu blog, Felipe. volte sempre que quiser. um abraço.

Albert disse...

Escrever realmente liberta Filipe, por isso também escrevo...rs

Juliana Caribé disse...

Achei bonito, mas mais que bonito, achei absurdamente real.
Eu sou uma dessas pessoas sentadas na cadeira em frente à cadeira do psicólogo, contando os problemas e tentando superar as marcas de um passado dolorido, para que, quem sabe, eu consiga fazer o futuro um pouquinho melhor.
Não temos mais, realmente, liberdade de ser. Temos de ter. Temos de seguir padrões, estéticos ou não. Esperam sempre da gente. Esperam sempre de mim: que eu seja boa amiga, boa filha, boa esposa, boa funcionária, boa de cama, boa na escrita, boa, boa... Cansa! Cansa ser o que os outros querem e deixar de lado o que realmente somos. Cansa atender ao telefone, mesmo sem vontade, só para que a outra pessoa não fique chateada. Cansa abrir mão de algumas coisas que gostamos por causa de pessoas que, muitas vezes, sequer dão valor. Cansa ter de fazer o que não gostamos, porque precisamos sobreviver. Cansa, todo dia, cansa!
Mas, se não é assim, somos loucos e somos excluídos. Mas, pensando bem, quem é mais louco aqui?

Eu concordo com você: escrever liberta. Alivia. Conforma. Clareia. É a melhor coisa do mundo. Eu tento escrever algo que seja bom, e confesso que geralmente não gosto do que escrevo. Mas, estou no caminho, tentando descobrir minha própria maneira de me expressar.

Beijocas, querido!

BARBARA disse...

Simplesmente me identifiquei aqui, com esse texto.. tenho esse msm sentimento!!

Sou moderna e tenho atitude. disse...

Adorei o texto. Acho que o cansaço da dor não significa que ela seja eliminada e voltemos a viver com a alma de uma criança sem experiências. Quando ela cansa é porque outras coisas despertam em nós. É a alma gritando "CHEGA!", desesperada pra viver como desejamos - e ainda não sabemos. Dizer adeus pode doer muito mais no início de uma ruptura do que naquele estado de comodismo, mas a sensação de libertação e de dizer bem-vindo à minha nova vida é inexplicável, mesmo que dure 3 segundos.