
Não sei se me desperto
Ou se desperto a dor.
Eu queria falar apenas desses dois versos, mas hoje, lendo Rubem Alves, refleti muito sobre uma história que o autor relatou. Ela é assim:
“A esposa – ela amava tanto o marido! – fazia-lhe diariamente um mingau de fubá, alimento forte para manter as forças. Assim foi por toda a vida, numa fidelidade comovente, sem falhar um dia sequer: toda manhã lá estava diante do marido o prato de mingau de fubá que ele comia até o fim. Até que o inesperado aconteceu. Já bem velha, ficou doente, não conseguiu se levantar da cama. O que seria do seu pobre marido sem o mingau de fubá? Desolada, chamou-o para explicar que, infelizmente, naquele dia, ela não poderia fazer o mingau de fubá. O rosto dele se abriu num vasto sorriso. ‘Não se preocupe, não, meu bem. Pra dizer a verdade, eu nem gosto mesmo de mingau de fubá...’”
Fiquei pensando sobre os relacionamentos humanos. Pra ser amante de alguém, temos que ceder várias coisas e aceitar muitas outras. Para ser amigo, temos que tolerar muitos defeitos e reações inesperadas. Para sermos filhos, temos de ouvir sermões e levar broncas. Então me perguntei: pra quem tenho oferecido mingau de fubá todos os dias? Será que, ao invés de oferecer o mingau, eu não seria capaz de dar outro prato que a pessoa goste, ou, simplesmente, jogar um pouquinho de canela em cima do mingau? Não posso ser tão egoísta a ponto de fazer as pessoas engolirem o que não gostam.
Juntamente com essa reflexão, faço uso dos meus versos lá em cima: “não sei se me desperto/ ou se desperto a dor.” São duas escolhas: olhar pro meu próprio umbigo, despertar como todos os dias ou despertar a dor nos outros (dar o mingau). Não acho que seja fácil evitar a dor no outro, mas posso tentar (?).
Também creio que o velhinho foi sábio. Mesmo não gostando do mingau, aceitou-o a vida toda porque sabia que era feito para ele com aquela fidelidade invejável e com a melhor das intenções. Isso também me faz pensar nas coisas que rejeito, nos pratos de mingau que tenho afastado da minha mesa. Quanto gesto de carinho eu perdi?
Os relacionamentos são profundos poços. Nunca se sabe em que nível está a água. Mas o baldinho fica ali preparado e as mãos prontas para fazer girar a roldana.