sábado, 22 de agosto de 2009

Coisas de gente grande


Ele não sabia ao certo o que sentia por ela. Não entendia muito essas coisas de sentimento, talvez pela idade. O pai sempre dizia que alguns assuntos não eram pra crianças feito ele. Verdade é que ele se sentia homem, quase. Já não tinha medo do escuro e podia perfeitamente atravessar qualquer rua sem dar a mão a Maria. Até mesmo a Avenida Central, aquela onde os carros zuniam sem prestar atenção nos pedestres.


Suspeitou que pudesse ser amor e quis tirar a dúvida. O pai sempre lia jornais, sabia de todas as coisas, era o homem mais inteligente que conhecia. Certamente ele saberia dizer com precisão sobre o amor.


- Pai, amor é o que?


- É algo bom de sentir. – disse o pai que gostava de respostas breves.


- E como a gente sabe que é? – insistiu o menino, já que o pai não finalizara a conversa com o típico “esse assunto não é para crianças da sua idade”.


- Quando o trivial fica bonito de novo.


- Ah! – exclamou o menino, fingindo entender tudo.


Então devia ser amor mesmo. Melhor que fosse porque sabia que amor era um sentimento bom de sentir, como dissera o pai. O menino foi para o seu quarto de onde poderia vê-la. Sabia que todos os dias às seis da tarde ela chegava em casa esbaforida com uma roupa de ginástica apertadinha e entrava logo no chuveiro. Demorava em torno de vinte a trinta minutos e saía de lá aliviada. Ele conseguia ver boa parte de seus movimentos, embora a imagem dela não fosse tão nítida, mas apenas um ponto quase apagado no meio da casa. Teve a ideia do binóculo. Assim poderia amá-la de perto, concluiu.


Ele sabia, porém, que ela não era criança como ele. Era uma moça que vivia como adulto e conversava coisas de adulto. Por óbvio eles nunca namorariam. Talvez se ele tivesse uns onze anos como o Pedro, seu irmão. Ah, se tivesse onze anos, ele saberia coisas de adulto e poderia conversar com ela. O trivial seria tão mais bonito, pensou. Pegou o dicionário para ver o que significava aquela palavra dita pelo pai.


Certo dia, quando o tio fez uma visita à sua casa e sentou à mesa do jantar com eles, escutou uma nova palavra: amante.


- Amante é o que, tio? – perguntou o menino.


- Isso não é assunto pra você. – ralhou o pai.


- Não, Plínio, me deixa explicar pra ele. – e o tio se voltou para o menino – Amante é uma mulher que não pode ser esposa. Geralmente ela é mais jovem e mais bonita, mas não pode ser amada.


- E por que ela não pode ser amada? – o menino não podia acreditar numa coisa dessas.


- Porque se elas forem amadas, as esposas ficarão muito bravas.


- Chega desse assunto. – disse o pai e o assuntou acabou.


O menino achava a vizinha jovem e bonita, mas não servia para ser sua amante. As amantes não podem ser amadas, dissera o tio. E ele a amava, porém. Pensou na mãe que era esposa do pai. Melhor ser esposa do que amante, concluiu. Mas a mãe era tão bonita, tão jovem e sempre disseram isso. Vai ver toda mãe podia ser esposa e também amante. Difícil era entender essas coisas de gente grande. Tem regra até pra amar.


Resolveu que diria à vizinha sobre seu amor. Não tinha muita coragem pra ir até à casa dela e falar pessoalmente. Julgou que uma carta seria melhor. Escreveu. Rasgou. Não poderia dizer que gostaria de namorá-la, poderia? O tio disse que as esposas ficavam bravas quando descobriam essas coisas. A mãe era esposa do pai e, com toda certeza do mundo, acharia ruim se descobrisse que o filho tinha uma amante. Mas ele poderia explicar à mãe que não era amante, não. Porque amante não pode ser amada. A mãe acreditaria? Ela nunca foi de entender muito bem suas coisas.


Desistiu do amor e pegou o binóculo. Eram seis horas. Lá estava ela entrando em casa com a roupa de ginástica apertadinha. Tão jovem, tão bonita. Daria uma ótima amante. Ou uma esposa, pra ser amada. Mas era difícil amar no mundo dos grandes. Uma pena.


17 comentários:

Vanessa. disse...

Que coisinha mais lindinha, Felipe.
Adorei esse pequeno apaixonado.

Beijo.
:*

Maria disse...

Muito difícil mesmo as coisas de gente grande. Eles parecem que não gostam de coisas simples...tem que sempre complicar um pouco. Mas diz para o menino que a pessoa pode muito bem ser as duas coisas, esposa e amante... e diz, principalmente, que pode não ser nenhumas das duas, mas ainda asssim, ser amada.

Beijos doces

Sarai disse...

que bonitinhooo!!!!!!
tão meigo sua forma de dizer como é difícil amar..O único problema do mundo dos adultos,são os adulto mesmo =]
;**

Kaio Rafael de Oliveira Diniz disse...

Ah, a leveza do texto esconde uma crítica forte, hein?

Sim, sim.
No mundo de gente grande é difícil até mesmo amar.
A gente torna tudo complexo demais.

Gostei do lugar e da maneira como escrever.

Prazer,

Thiago disse...

é uma pena mesmo...

Sam disse...

Filipe,

ainda é difícil amar no mundo dos adultos. Este garoto parece que já conhece de perto um sentimento que os "grandes" menosprezam nos pequenos. Alguém precisa contar pra este pai que para o amor existir basta amar.

Beijos.

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernanda disse...

o amor na mente de uma criança é algo tão mais especial,não é algo que envolve desejo,é algo que envolve sentimento daqueles mais puros...através daquele binoculo não sei se ele encontrou o amor verdadeiro,a esposa ou a amante mas sei que ele viu mais do que qualquer outro que lá estava...

Adriel disse...

Amor, um tanto simples, e complicado, sentimento sem definição, é amor.

Otimo texto
Grande Abraço!

João Romova disse...

É... amar tem sido um tema complexo, simples, chato, inalcançável.

Mas é que tudo é tão imaterial, transcendente, químico e salivar

Coisa boa é sair desse mundo mágico e viver de mistério!

[belo texto]

Ivan Ryuji disse...

"Difícil era entender essas coisas de gente grande. Tem regra até pra amar."

Muito bom, cara. Belo post!

Realmente o mundo dos adultos é mais confuso do que supunha quando pequeno, mas assim mesmo, vale a pena encontrar as tais "regras pra se amar". hahaha

Abraço

Anna disse...

Ah, que super amor! Gente, amo histórias de criancinhas apaixonadas! Me lembrou um episódio de Wonderfalls, em que acontece uma situação parecida. Enfim, ótimo texto.
Ah, você é mineiro de onde?
Beijos

eden disse...

Menino,

depois daquela conversa comigo e com a Jaya resolvi dar uma passadinha no seu blog, só pra dar uma conferida!

Confesso que achei o texto um máximo. Me lembrou muito O Pequeno Príncipe - Um dos meus livro favoritos-, tudo isso, porque o garoto possui bastante curiosidade e nunca deixa uma pergunta de fora. Simples, crianças querem saber de tudo que estão vendo e sentindo e adultos não têm paciência para respondê-las.

Queria eu voltar a ser criança e ver tudo com novos olhos. Ótimo o sentimento de descoberta, né? Talvez seja um dos melhores. No fim das contas não há respostas que nos digam o que de fato está acontecendo, só sabemos se experimentamos!

Gostei

Até a próxima!

Karine. disse...

Concordo com o que disseram aí em cima, a leveza do texto esconde uma crítica...
E o texto é belo, muito belo.

Porque o amor nascendo assim, puro e vadio, essa descoberta do outro, é uma das coisas mais lindas.

Lembrei da infância...

Ah, amei o novo layout.

Beijo!

Juliana Porto disse...

Dos versos ao layout: Isso aqui é tudo muito bem feito!
Que conto!
Verdadeiramente uma pena amar e ser amada nesses dias.
Me empresta um binóculo?

rs*

Beijocas.

[P.S: Te favoritei!]

Sofia A. disse...

Ah, que lindo este texto, que genial estes teus olhos de criança.
Tão leve, tão gostoso de ler.
E não é que complicamos mesmo essa coisa de amar?
acho que na tentaiva de definir, de entender, acabamos criando novas faces, novas regras e outras complexidades que talvez não existam.
Ou talvez sim.
A verdade é que façar de amor é incerto demais.
Um beijo!

Jônatas Santos disse...

E dessa inocência, desse amor sem segundas intenções que sinto falta. De ser só o sentimento levado em consideração e o simples desejo de amar desesperadamente. Como nunca antes. Talvez um binóculo possa me ajudar ou talvez eu apenas deva ver por um outro ponto de vista.
Amo aqui. No words. rs