terça-feira, 11 de março de 2008

O mesmo amor, o mesmo pôr-do-sol


Confessou ao marido que estava farta do seu descaso. Vivia inalando aquele ar hostil de quem chega do trabalho, deita de frente à TV e esquece-se da pessoa com quem divide a cama. Ele não entendeu. Achou que era frescura de mulher, falou que voltava sempre cansado porque trabalhava muito – não tinha o direito de se deitar e ver um pouco de TV? A mulher deixou pra lá. Sabia que não ia conseguir resultado algum. Devia ter pensado melhor há cinco anos quando optou casar-se com ele.

Ela resolveu que iria escrever um romance. Ele não namorava a televisão? Pois ela teria o computador como amante. Faria o possível para sentir-se suprida. Levou algum tempo para substituir os carinhos e as palavras dóceis pela companhia dos personagens fictícios que habitavam sua mente. Com o tempo, sentiu-se mais humana, capaz de criar, fazer renascer a arte dentro de si.
O marido foi tomado por um ataque de ciúmes doentio. Chegava em casa perguntando pelo jantar e tinha que se assentar sozinho na mesa porque a mulher, agora, era uma escritora. Começou a brigar, fez ameaças, contou mentiras. Nada deu certo. Ele percebeu o descaso da mulher, percebeu que a havia perdido.

No outro dia, chegou com um anel de brilhantes. A mulher deu um sorriso e selou o marido com um beijo de gratidão. Ficou só nisso. Logo ela voltou pro seu mundo fictício, digitando afoitamente o teclado do computador.

No segundo dia, ele veio com uma caixa de bombons de avelã – os prediletos dela. A esposa provou um, disse que era muito bom e pediu ao marido que guardasse a caixa no criado mudo. Depois disso, ela voltou a escrever.

No quarto dia, o marido anunciou que comprara uma viagem para o próximo mês. Iriam a Salvador aproveitar um pouco o verão. Ela reclamou. Disse que no próximo mês não dava porque estaria escrevendo os últimos capítulos do romance.

O marido, por fim, desistiu. Viu que estava de mãos atadas e que a mulher estava absorta em seu novo mundo. Passado alguns dias, começou a lamentar. Lembrou-se do começo do namoro, quando eles iam passear na pracinha e tomavam sorvete até a tarde cair. Viu que perderam todo o romantismo e toda esperança que habita os olhos dos apaixonados.

Decidido, o marido tirou a mulher de frente do computador e agarrou-a pela mão. Disse a ela que tinha algo muito importante para mostrar. Ela foi, resignada. O marido levou-a á praça do primeiro beijo e disse, como da primeira vez, o quanto ela era linda. Depois, arrancou uma maria-sem-vergonha e entregou-lhe jurando amor com os olhos. Ela se rendeu.

E ele finalmente entendeu que não eram as jóias nem os bombons. Era aquela tarde com o seu pôr-do-sol eternizada dentro deles que ficaria latejando por muito tempo, pro resto da vida. As demais coisas se perderiam. Mas isso não fazia a menor diferença.
Tem texto no Encontro de Infinitos. Confira!

23 comentários:

Bárbara Matias disse...

Filipe,

É bom perceber que em noites frias os seus textos vêm e aquecem a alma da gente, e onde não existe riso há dias, de repente exala um toque de felicidade e esperança.

Seus textos mexem com a alma da gente. Mexem aqui dentro.

Amei.Obrigada.

bjo.

Marcela disse...

Simplesmente maravilhoso.. incrivel.
Adoro contos, e o final, dessa vez foi um final que eu gostaria de ter escrito.
Parabens!

Beijos

Juliana Caribé disse...

Filipe,

li seu texto ontem, pouquinho depois que você o postou. Mas preferi passar a noite e comentá-lo hoje, porque ontem ele realmente mexeu comigo, e depois de lê-lo, eu não tinha mais a menor condição de escrever nada.
Lindo, mas, mais que isso, realista. Quando a gente casa, com algum tempo, que nem precisa ser muito, algumas coisas se perdem - justamente as que deveriam durar para sempre.
Fiquei feliz com o final: ele finalmente percebeu que a felicidade está nas pequenas coisas. Às vezes, eu também esqueço-me disso.
Obrigada pelo texto...

Beijos,

Ju.

Anna Terra disse...

Que lindo o seu texto!
Você foi ao meu blog, então vim aqui retribuir.
Gostei das coisas que escreveste.
Ah, muito obrigada pelos elogios.

Beijos!

Mr. Ziggy disse...

E que bom que ele entendeu! E que bom que ela se rendeu! Peguei-me terminando de ler seu texto com um sorriso na face. Acho que esse lance de ver marido e mulher renunciando aos próprios orgulhos para fazerem-se felizes e buscarem uma vida a dois sadia e gosotosa me faz bem. O amor é sempre lindo, quando com ele aprendemos a nor doar...
A cada leitura que faço, mais te admiro, Lipão!
Abrazzo!

Mr. Ziggy disse...

*nos

:: Daniel :: disse...

Lindo o seu texto. Me lembrou um versinho dos Los Hermanos (uma das minha referências):

"Desliga o som dessa TV pra gentte conversar"

Simples, né? Mas acho que resume meu sentimento em relação ao seu texto.

Abraço grande!

o Cronista disse...

eu t b cansei.
virei escritor, bloqueiro, triste, poeta!

Junior disse...

to te add tá.

Karine. disse...

Tem muito de real no seu texto. Tanto que até assusta.
É a velha questão dos detalhes, são eles que conquistam, eles que fazem nascer o sentimento.
Quem aprende a preservá-los, ganha o jogo.

Parabéns, amei seu texto.

junkiecareta disse...

Beijou sua mulher como se fosse a última...
Belo texto.Conheço várias pessoas que embarcaram nessa paixão e nunca mais sairam.Olha só,fiz e postei em meu blog uma pequena pesquisa aqui em S. Luís sobre que música ouve-se na cidade e queria saber como andam as coisas por aí.Apareça quando puder e contribua com sua informação.
Grande abraço

Ana Cláudia Zumpano disse...
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Ana Cláudia Zumpano disse...

Achei você no encontro de infinitos, e gostei muito do teu blog. Relacionamento é algo que sempre nos surpreende... e qnd as pessoas juntam os travesseiros, aí sim começa outra história, que não pode nunca perder o encanto. Lindo texto, queria dizer tanta coisa... mas fica aqui minha admiração por teu texto! lindo ;*

Hélder, o míope disse...

É, ela soube fazer com que ele se sentisse culpado.

Se as pessoas percebessem mais umas as outras, não precisariam passar por momentos ruins.

Mas, nesse caso, a volta ao passado, trouxe de volta algo que ficou perdido com o tempo.

Bom conto!
Gosto muito de contos.

Abraço!

Gabriela disse...

Felipe.
Tá sumido.

Aninha disse...

o amor eh feito de momentos e não de presentes! mais vale uma flor q vc roubou do que um buquê comprado
=D
Bjs

J.S. disse...

Seus textos sempre me sensibilizam...adoro...
um abraço menino!

Priscila Petrarca disse...

Filipe, como eu já disse inúmeras vezes, teus textos são maravilhosos, nos tocam profundamente.
muito bonito mesmo! beijo.

Fernando Locke disse...

Muito bom! sentimentos tais como amor, solidão, angustia, ciumes, tudo isso tá aí! e o fato de ser escritora,deu um toque "myself" nisso,não é? abraço!

Banzooo disse...

A felicidade nas pequenas coisas... :)

[Ana Clara]

Jaya disse...
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Jaya disse...
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Jaya disse...
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