
*Em co-autoria com a Jaya
O que você esconde atrás do seu olhar? Duas bolas cintilantes que me ofuscam mesmo quando você está longe e vem andando devagarinho. E eu não falo metaforicamente, embora goste muito dessas coisas de falar por debaixo dos panos. Basta olhar pra você e ver que seus cabelos de caracóis trazem nuvens brancas e serenas. E quando bate o vento neles, você se transforma em fada com varinha de condão e asas. Porque as suas asas não ficam nas costas, eu bem sei. Mas essa sua forma de falar cantando e essa doçura intrínseca no seu olhar me deixam inebriado. Digo que estou apaixonado? Há tantas formas de se apaixonar. E suas palavras fazem isso comigo, como se eu não pudesse domar meu juízo. E quando você me abre esse sorriso de roda gigante e me mostra que seu mundo é tão encantador quanto sua alma, vejo-me contando os cachos seus e brincando de tirar flores dos seus cantos. Diga-me, de uma vez por todas, o que você esconde atrás do seu olhar?
Eu poderia te contar do meu olhar, e de como agora você se esconde no meio das estrelas que eles guardam em si. Mas eu me vejo deveras distraída ao perceber teu mundo manso junto ao meu. Checo teus olhos em flagrante enquanto me aproximo, e eles me sorriem tão lindos, assim. Será que esse também é teu jeito de sempre chegar? Você me conta coisas tão bonitas no meio dessas tuas palavras de lírios, tão coloridos e bem cuidados, que eu não sei evitar lembrar da música de Chico que diz: eu vim com a flor dos acordes que você brotando cantou pra mim. Foi assim que eu vim. Esse perfume pueril que você sabe dosar, me remete a um pensamento que talvez até pareça demasiadamente infante. É que eu enxergo tua alma tão claramente e de uma maneira tão afável que não seria absurdo nenhum pensar que elas já caminhavam de mãos dadas quando ainda não sabíamos que ia acontecer nós dois, um dia. Num tempo onde nossas afinações ainda não existiam, onde nossos sonhos se extraviavam. E agora eu te olho daqui, pousado no mesmo campo que eu pintei pra mim, com esses lábios risonhos, como quem diz que acabou de voltar ao mundo e conhece os tesouros de todas as doces liras dos poetas de outrora. Agora que já ancoramos no mesmo porto, me leva um pouco com você, façamos um passeio gentil por entre esses ares coloridos. Me fala baixinho sobre a tua música.
Você quer um passeio? Dê-me aqui sua mão, vou mostrar a você onde eu guardo minhas canções. E não se assuste se eu começar a despejar meu coração em prantos. É porque eu sou chorão e não gosto de dormir no escuro. Mas quando sinto sua brisa, eu também percebo o pôr-do-sol que você faz nascer em mim. Você , então, puxa uma cadeira e fica do meu lado, vendo o sol descer. O que fica guardado em mim nem é tanto o momento. É você pintada de ouro, reluzindo como uma estátua de Madri. Aproveito e faço-lhe uma coroa de flores. Você não fica mais bonita. Não, sua beleza não brilha como o diamante. Sua beleza cálida é aquela que percebo quando pego sua mão e tudo ao meu redor se eterniza. Porque você me cativa. Porque, finalmente, entendo o que você esconde no seu olhar. E não é só ternura. É um rio infinito de águas que você tira pra eu beber. E essa água é poesia. É poesia.
Meu livro é decifrado tão facilmente por você, às vezes confundo teus olhos nos olhos meus. Quando nossas mãos se tocaram, não sei se você notou, me fiz cintilante. É tua presença em mim que faz despertar esse brilho maior. Enquanto teus dedos brincavam com as flores em coroa, eu fitava você sentado ao meu lado, observava detalhes desse teu desenho bem traçado. Quem te talhou com tanta delicadeza e salpicou tamanha doçura nessa tua pose de encantado? Ao mesmo tempo em que teu pranto encontra o meu, nossos corações iniciam uma conversa infinda, e só uma coisa me assusta: a possibilidade de nunca terem se conhecido. De onde vem tanta candura que faz tua poesia se misturar com a minha? Você caiu no meio das minhas quimeras mais preciosas, e se encaixou tão bem. Ah, que estrela você é! Repara o céu, a lua está pedindo licença pra chegar com seu afago celeste. Já é noite, e a gente se ilumina tanto! Vamos combinar uma coisa? Quando o escuro aparecer, e você estiver bicudo com suas lágrimas, olha o céu. Ele é o mesmo para nós dois. Lá sempre vai haver uma estrela vestindo um pedaço do meu coração, ela é meu presente para você. Prometo que sempre iluminará outra vez teu fulgor meigo e enternecido.
Vamos caminhar de volta? Tão injusto o tempo chegando como quem impõe suas vontades! Ele quer te roubar daqui. Diz ser hora de fechar os olhos. É que o sol se prepara para despertar sorrindo amanhã, sem nem desconfiar que minha lente já te fotografou comigo.