segunda-feira, 12 de abril de 2010

O velho


Às vezes eu converso com esse velho de cabeça branca, sentado na cadeira de balanço e que não para de dizer que a vida é muito boa, sim senhor. Faço cara de valentia e digo que a vida não é boa tão assim. Ele sorri pra mim e me acha muito imaturo. Mas ele não se faz de superior, não. Diz que a gente sempre cuida de aumentar aquilo que é ruim, porque o bom e o ruim aparecem em proporções exatas, mas a gente gosta é de aumentar um e diminuir outro. Não concordo. Fico olhando praquele movimento sereno do corpo que vai pra cá, pra lá, num balanço de quem já cansou de ser homem, quer virar estrela logo.


Eu pergunto se o amor existe, se é essa coisa doida de bonita que as pessoas dizem sentir. Ele para e coloca a mão na testa, como se procurasse por alguma febre que demorava por vir. Eu espero por uma resposta, mas ele só me olha como se catasse todos os meus segredos. Eu torno a perguntar e ele resmunga. O amor não é de sentir, ele deixa escapar, meio a contragosto. Tem gente que espera sentir o amor a vida toda, mal sabe que o amor chegou há dois milênios. Não acho nada daquilo muito sensato e digo que conheci uma mulher sem vocação para o amor. Conto que ela me despejava doses diárias de tristeza, de forma que eu ia murchando, murchando.


O velho balança a cadeira e eu acho que aquilo é um gesto de anuência. Penso que ele talvez já tenha sofrido nas mãos de uma desvocacionada. Ele volta a repetir que a vida é muito boa, sim senhor. Eu me levanto, dou boa noite e me deito pensando em como a vida, ao fim, parece fazer mais sentido. O velho entra no meu quarto e diz que vai ficar sentado na beira da cama. Eu digo que sim, que ele pode ficar onde quiser. Esse velho sou eu.


14 comentários:

Gabi Pasquale disse...

Adorei seu texto, como sempre. E realmente, as vezes, a gente esquece das coisas boas e acaba dando atenção somente para as ruins. Tem pessoas que não percebem a vida, o amor, tudo de belo que está ao redor. Triste isso.

Juliana Porto disse...

Muito bom, sim senhor!

Um beijo e um queijo!

Vanessa disse...

São tantos os desvocacionados, que eu me pergunto se amor existe mesmo.

Saudade daqui.

;*

gabriela m. disse...

amor existe e os desvocacionados também. sempre tem uma pulga pra encher o nosso saco.
os desvocacionados são a pulga do amor. :s

Maria disse...

As pessoas pensam que são fases e na verdade são faces.

Mário Quintana

[Um beijo]

Mai disse...

E assim nos veremos, Filipe, em algum momento e circunstância desejaremos saber do amor.
Beijo, querido.

P.S.1
Eu li uma outra atualização no painel.

P.S.2
Estava com saudades de te ler e ainda Tô com saudade de ti.
Como anda a mono?

gabriela m. disse...

vim conhecer a tal moça do feijão, mas quando cheguei ela tinha ido embora :s

Vanessa disse...

Filipe,

Talvez casamento não seja realmente o título mais apropriado, porém era a única palavra que girava ininterruptamente na minha cabeça, desde que eu soube que ele havia casado.

A vontade, pelo menos a minha, ficará guardada para sempre. Aqui, em silêncio no meu coração. Por mais que meus olhos desejem os dele, e que os dedos não importem. O compromisso existe. Mas é dele com ela.

Meu coração apenas se cala e se permite ir.

Beijo
;*

Luciana disse...

Pois sabe que esse velho parece ter razão?

A vida é muito boa, sim senhor. A gente é que complica demais e vive achando desvocacionados no caminho e isso faz a gente ir murchando e enxergando só o cinza do dia.

Ei Lipe, Cadê a moça do feijão?

xD

Beijo!!
Saudade de cá.

Nasca disse...

vamos nos projetando, assim, com um descuido meio ingênuo até que vire estrela e o velho passe a viver no menino, então.

Bahh Grou. disse...

Surpreendente! Eu tinha certeza que o velho era um avô ou coisa do tipo.
Lindo, como sempre!
Tens um dom sabia?
Beijos.

aline a. disse...

Filipe,

Qualquer comentário que eu fizer vai parecer pequeno diante dessa explosão de sentimentos que você me causa. Primeiro porque você me transporta nas entrelinhas. Consigo formar cada cena, imaginar cada traço no rosto de cada personagem. E nas linhas, você me mostra o que vejo. Vi-me no texto, porque também carrego uma velha em mim. Mas que, na maioria das vezes, não me deixa desistir. Quando terminei de ler, pensei: como é bonito ser humano. É isso que você sempre mostra, a beleza das coisas. Como se seus olhos transmitisse para as suas mãos o mundo em um ponto de vista incomum. Romântico. Acho bonita, essa coisa de podermos ser mais de um em um só corpo, como se já não fosse estranho carregar um ser em um corpo.

Aqui vai um obrigada, porque seu texto caiu como uma luva nessa minha quinta - ou nesse mês inteiro. E também, um obrigada pelo ultimo comentário deixado no blog. Sim, sem álcool.

Um beijo pra você.

Sylvia Araujo disse...

Que ele balance vez em quando, mas par dar força pra criança que existe em nós. Pra que nunca deixemos de acreditar e enxergar mais do que nossos olhos cansados são capazes de ver. É dentro que ficam guardadas as melhores coisas. Basta que de vez em quando espanemos a poeira que insiste em cobrir o belo.

Lindo, Filipe.

Beijoca

Michele disse...

Lindo, Filipe!

Primeira vez que visito seu blog e fiquei encantadíssima com seu texto, com a delicadeza das palavras, com a forma como você retratou esse nosso "eu interior" que, no fundo, sabe de todas as coisas e que, vez ou outra, nos deixa escapar os segredos de um coração e um subconsciente que nem sempre conseguimos compreender...

Um beijo!
:)