quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Lugar de declaração amorosa é no bar


Ela chegou, sentou no balcão e me pediu um drinque. Devia ter seus vinte e poucos anos, cabelos entre o liso e o cacheado, olhos expressivos, boca inquieta, sorriso despudorado. Já havia notado que ela sempre chegava sozinha, bebia dois, três copos de qualquer coisa e ia embora. Não falava com ninguém, não dava bola pros rapazes que arrastavam asa, não flertava.

Naquele dia ela me notou, elogiou minha camiseta, falou que eu tinha pinta de artista de filme de quinta categoria. Riu da própria piada. Mexeu o gelo com os dedos, todos eles, e chupou um a um, me encarando nos olhos. Suei. Ela perguntou se eu já tinha ido em algum lugar perigoso, se eu gostava do perigo. Eu falei que não, geralmente. Que eu preferia lugares tranquilos. Ela gargalhou e perguntou se eu estava ficando louco.

“Gosta de lugares tranquilos e trabalha num bar como este? Tá de sacanagem”.

Eu pensei em explicar que nem sempre eu estava em lugres que gostaria de estar, mas desisti. Ela parecia interessada em me tragar feito um cigarro, fazer de mim fumaça e me tornar cinza. Os olhos dela, aqueles olhos de analisar fotografia, me causavam distúrbio. Meu coração já engatinhava rumo à garganta. Perguntei se ela estava acompanhada. Ela suspirou.

Arrebitou-se toda por cima do balcão, debruçou-se sobre os cotovelos, e me encarou firme, com olhos alcóolicos, os mais sóbrios que já vi. De repente, disparou alguns versos, como se quisesse me fazer engolir uma comida: “E eu quero te servir a poesia numa concha azul do mar ou numa cesta de flores do campo. Talvez tu possas entender o meu amor. Mas se isso não acontecer, não importa. Já está declarado e estampado nas linhas e entrelinhas deste pequeno poema, o verso; o tão famoso e inesperado verso que te deixará pasmo, surpreso, perplexo. Eu te amo, perdoa-me, eu te amo”.

Já não sentia mais meus pés, meus braços, minha nuca. Eu estava inteiro nela, dentro dela. Ela me puxou pela camiseta – a mesma que há pouco havia elogiado – e me beijou com quinhentos e cinquenta volts. A descarga elétrica foi ouvida em forma de um estalar arrítmico no céu da boca. Foi preciso uma fração de tempo para eu entender o que havia acontecido, pra retomar o controle das minhas mãos e puxá-la pra mais perto, fazendo-a sentir meu coração ensandecido que não queria saber de amor verdadeiro.

Ela se recompôs. Ajeitou os cabelos, amarrando-os em um coque malfeito. Sorriu, pegou a jaqueta que havia encostado na cadeira ao lado e foi embora. Sem olhar pra trás. 



[os versos citados são de Cora Coralina]

3 comentários:

Anônimo disse...

amei!!!!

Rebeca Postigo disse...

A vida por vezes nos prega peças...
Talvez é a palavra mais cruel que existe no mundo...
Adorei seu conto!!!
Como sempre me tirou o fôlego...
Saudades daqui!!!

Bjo, bjo!!!

Aline disse...

"Eu pensei em explicar que nem sempre eu estava em lugres que gostaria de estar, mas desisti."

Acontece aqui também.
Lindo texto, Filipe, como de costume.

Um abraço.