terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sessenta e sete vezes


O telefone tocou sessenta e sete vezes. Mas o barulho me acompanhou ao longo de todo o dia. Atrás do telefone, a alguns quilômetros daqui, eu imaginava você, frenética, apertando o recall com o indicador direito; o indicador esquerdo na boca, sendo mordiscado. Eu não pude te atender. Não poderia. Você me fez vulnerável demais na noite anterior, enquanto preenchíamos aquelas taças de vinho com lembranças de um passado recente. Eu te amei em todos os toques do telefone; sessenta e sete vezes te amei. Meu coração estremecia ao pensar em você, frágil, querendo fazer de mim cachecol no pescoço. Senti-me inútil ao tentar fazer as pazes com a solidão. O amor não deixa a gente só, porque existe sempre a sombra da outra pessoa que nos acompanha. Não se assuste. Eu falo de amor, mas o que sinto não merece esse nome. Não merece nome algum. O que me preenche não é sentimento, saiba. É você, inteirinha.

6 comentários:

Luciana Brito disse...

Que lindo!
Adorei essa descrição sutil de amor.

Beijo, Lipe!

Rebeca Postigo disse...

Ahhh...
Que belas palavras...
Adorei!!!

Bjs

Henrique Miné disse...

A solidão nunca quer fazer as pazes com a gente.

Abraço! Lindo texto!

Pollyana disse...

Gosto muito quando você trilha por essa trilha de estilo... Muito bom!

Giovana Godoi disse...

"O amor não deixa a gente só, porque existe sempre a sombra da outra pessoa que nos acompanha."

Realistérrimo, adorei.
Lindo o texto.

.Fran. disse...

PQP! Lindo demais. Na medida.