quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Passarinho


- Que tem de bão aí, na panela?


- Tem nada não, sai de perto.


- Ih, acordou do avesso, muié. Tá de coisa?


- E eu lá sei o que é coisa?


- Coisa, daquelas que muié sempre tem.


- Não, tenho coisa não. Tô só pensatória mesmo.


- Ainda tá triste com o passarinho? Eu já lhe disse, muié, um passarinho de nada, aquele. Amanhã eu vou lá na venda do Tão e te trago outro.


- Não é isso, home de Deus. O pequenino era que nem filho pra mim. Era dar seis horas, ele começava a cantar pra eu acordar. Então eu dava o de comer pra ele e ele ficava com aquelas asinhas salientes, feito menino endiabrado. Dispois a gente cantava junto, sabe? Ele tinha uma vozinha fraquinha, coitado. E eu acompanhava ele, pro canto ficar bonito.


- Tá doida, é?


- Acontece que me acostumei. Era parte do meu dia parar, dar atenção, dar o de comer, cantar com ele. E quando ele pedia pra dar um voltinha com aqueles olhinho apertado? Eu abria a gaiola e ele ia pintar nos pé de manga do quintal. Ia e voltava, feito filho obediente. Tão bonitinho, o pequeno.


- Muié, para com isso de chorar! É um animalzinho. Como pode ter pegado amor com um bicho que nem sabia seu nome?


- Ah, sabia sim! Sabia sim, viu? Que eu ouvi uma vez ele me chamar e eu até me voltei apavorada, pensando que era coisa de outro mundo. Mas vi que era ele, com aquela vozinha fraquinha, coitado. Veio cantando pro meu lado, dizendo que meu nome era bonito. E repetia: Ma-ri-a.


- Muié do céu, tô ficando é preocupado com cê. Que isso agora de ouvir passarinho falar? Vou ligar pro doutor.


- Carece não, home. É coisa que não explica, de quem inventa de escutar o que não deve por gostar demais. Sentimento faz aparecer algumas coisas do lado de fora também.


- Sentimento que nada. Isso é doidice.


- Me deixa! Vou acabar de fazer o almoço e ocê trata de arrumar alguma coisa pra fazer. Home impertinente, diacho!


- Isso aí de sentimento por fora, é bom? É que nem meu abraço, assim?


- Sai, home. Sai que a panela tá pegando fogo.


- Não ligo. Canta pra mim, canta passarinha.


- Seu bobo! Coisa mais besta. E isso não é hora de namorar. Tô suja.


- Tá é linda.


- Cê acha, mesmo? Mais que a Carmélia?


- Carmélia não canta.


- Eu perguntei isso?


- Não importa. Vai cozinhar, vai. Vou na venda do Tão. Te compro um presente. E você se enfeita pra lua que vai assistir nosso cantar hoje.


- Você não canta.


- Quem disse?


- Eu disse.


- Pois vai ver só.


10 comentários:

Adriel disse...

Unico, um daqueles textos que nos tiram um sorriso bobo e gostoso...

Grande Abraço!

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana disse...

Tão simples e bonito.
Sentimento assim é gostoso de ter.

Beijo, Lipe!

Renata Bittes disse...

Ahh adorei =)

amanda lima disse...

É bonito como você consegue puxar sentimentos das palavras. Uma beleza toda singela. ;)

Sam disse...

Singelo esse amor simples, sem porquês e com esse en(canta)mento. Lindo.

Beijos.

Maria disse...

Beleza pura e bonita.

[Adorei que ela se chamasse Maria =]

Um beijo

Mai disse...

Uma buniteza é esse texto, viu moço?

Tem gente que fala mesmo 'tá de coisa?'

você me fez sorrir.

Tava tonta de saudade de tu.

Beijos meu anjo.

P.S.

Já se livrou da mono?

gabiz disse...

ah, achei de uma beleza tão singela.
tão natural, o apego um bichinho fofo que chamava Maria.

.
e você estava sumido;

Marcelo Mayer disse...

muito bom essa maneira que retratou o cotidiano. falta isso em certos contos de nosso dia-a-dia. humor e sacarsmo.
em relação oq escreveu em meu blog. valeu. pelo menos foi um os unicos que em partes soube me criticar, em algumas questoes. mas de maneira que possa rolar uma certa discussao. e nao uma minoria imbecil que leva pro lado pessoal e chega a me agredir. enfim.. e espero mesmo que este tipo de gente que fala "adorei aqui, ta add" nao comente mais. podem ler, mas comentem alguma coisa... hehe

abraços acara! e mais uma vez, parabens pelo texto