segunda-feira, 11 de maio de 2009

O menino


Ao menino, que não sei o nome, meu freguês.



O menino pede dinheiro na porta do restaurante. “Moço, me dá um trocado?”. Alguns passam e dão moedas. Outros um sorriso. Outros um nariz em pé. O menino não é bobo nada. Diz que vai comprar comida e vai pro bar comprar uma coca de dois litros. O menino quer é prazer.


À tarde ele vai pro supermercado, pedir trocado. Não agüento mais o menino. “Vem cá, meu filho, tá precisando de roupa?”. “Tô!”, ele responde com cara de quem quer dinheiro, e não roupa. E eu arrumo umas blusas que ele passa a usar diariamente, como amuleto.


O menino é filho da moça que mora em bairro pobre e tem mais quatro filhos pra criar. Um dia eu puxo conversa com ele que conta dos irmãos. O menino parece feliz, conversa cheio de gíria, não tem problema se eu falo bonito e estudo na faculdade. Ele gosta mais da simplicidade e me pede um trocado. “Hoje não. Te dei roupa outro dia.” Ele vira com a cara lambida e pede: “E tênis? Tem lá sobrando?”. Eu vou embora rindo e digo que vou dar uma olhada.


O menino gosta da menina, mais alta que ele. É bonita, mas não dá mole. O menino pensa que dá. Quando conversa com ela, muda até o tom, perde as gírias, os olhos ficam piscando, pedindo um beijo que não vem. Vai ver ele fica imaginando que o primeiro beijo vai ser com ela e até sonha com ela à noite, depois de pedir a Deus mais coragem pra declarar aquele sentimento que ele não sabe o nome.


De manhã, ele vai pra escola. Fica atirando bolinha de papel na professora e não quer nada com nada. “Menino! Vou contar pra sua mãe”, ameaça a professora, mas não mete medo nele, não. Estudar ele não estuda, mas tem prosa pra qualquer hora. Sabe de futebol, de bolinhas de gude, sabe de revista em quadrinhos – e até das revistas de mulher pelada. E ele desconfia, porque não tem tempo pra pensar nessas coisas, mas desconfia do amor.


Um dia eu pergunto ao menino o que ele quer ser. Ele vira pra mim, ingênuo e ao mesmo tempo sábio, responde: “Eu não tenho que ser nada. Eu já sou”.


O menino não estuda. Mas sabe das coisas.


24 comentários:

alex e! disse...

...olá, Filipe. Fiquei pensando aqui um tempo sobre esse teu menino e confesso que me preocupei, pois a aparente autencidade de se ser quem é esconde um maneirismo que me lembra o modo de um malandro, que alegoricamente é bastante interessante, mas que no frigir dos ovos, como diria meu saudoso avô, me deixa com pulgas por toda a orelha. Não é falso moralismo, mas até que ponto não estamos trocando valores por trocados - ou esmolas? De uma certa maneira, tento abordar isso no texto lá no mundo, e vi, assustado, como o texto daqui com o de lá se complementam, apenas sob óticas diversas...

abraço do alex....

PS: e viva o retorno do "Viver"!!!...

Maria Fernanda disse...

Citei você no post de hoje.

Lucas Vallim disse...

Desses meninos a gente vê muito por aí, não é mesmo? Mas nem todos são sábios assim... uma vez, eu e meu pai, oferecmos um lanche a um garoto, e ele disse bem claro "não quero lanche, quero dinheiro"...

Essas situações são lamentáveis, mas é por causa disso que seu texto torna-se brilhante! Até mais!

(estou te adicionando à minha lista de blogs, se quiser me adicionar também,ou não, fique à vontade!)

Jaime disse...

Brilhante.

Jaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mai disse...

Oi, meu anjo.

Amei o conto. Não lembro de ter lido histórias de meninos. Gostei da foto do template. Gosto tanto de vir aqui. Gosto tanto de tua escrita poética...

Agora vamos combinar, Lipe, coca-cola ...irque! Prazer!

Tá bom ele é criança... Beijos, linda alma, belo homem.

Fica bem.

Muito carinho,

Mai

Vinícius de R. Rodovalho disse...

O Menino tem muito a ensinar, não é, Filipe? Não estuda, não come direito, mas sobra sagacidade. Dessas malandragens, tá certo, mas das coisas da vida também. Até já desconfia daquilo lá, que chamam de amor...

Seu texto me fez lembrar João Cabral de Melo. Não o todo, nem algumas partes específicas, mas um termo. "Menino". Sei lá. Mas lembrei da morte severina. Dos muitos severinos. Vai ver que meu inconsciente fez a ligação da pluralidade - somos muitos severinos, somos muitos meninos por aí... Freud explica.

Luciana disse...

E esse menino, tão comum e singular ao mesmo tempo, é uma visão da vida.
"O menino não estuda. Mas sabe das coisas"... Essa frase é exatamente reflexo de que estudo é importante, lógico, mas não suficiente.

Lembrei do Menino de "Abril despedaçado". Não era um menino a pedir trocados, era um morador do sertão, porém, com a mesma esperteza e sabedoria.

Menino-vida!


Beijão Lipe... amei o texto!

Cαmilα ♥ disse...

Conheci um menino assim.
Mas ele se formou e nao quis fazer faculdade.
Abriu um pequeno comercio na varandinha de casa.
E foi crescendo.

Hoje é um belo comerciante, não rico, mas bem de vida.

E ainda não quis fazer faculdade.

E sim, ele é muito sábio.

BeijOs Lipe!

Tamires . disse...

Felipe,

E esse menino, mesmo sendo tão singular, quer uma pluralidade da vida, não?
Eu vi toda a cena aqui, desenhando na minha frente. Em muito por sua escrita sempre tão cativante, e outro tanto, por ser uma realidade não muito dificil de se encontrar.
Quis trazer mais um sorriso na face desse menino. Quis brigar com a moça 'alta' e fazê-la olhá-lo.

Mas o menino já sabe das coisas. Ele é 'o' menino. Cativante.

Lindo por demais.
Saudades daqui.

Beeijos!

gabriela m. disse...

moleque espertamente vivido.
/o

Nasca™ disse...

coisas que só a vida e o tempo ensinam..

no fundo, já somos
mas nossas crenças não nos permitem.
eita muleque danado

Darlan disse...

Achei o blog nem sei como, mas gostei do que li. Me lembrou uma crônica da Clarice que tinha no livro de Português... rs

Ni ... disse...

E o menino me ensinou a viver...

Míope disse...

É, não se trata de idade (dizem que com ela vem a experiência),
nem de estudo.

Tudo é questão de vivência.

Muito bom, como já é de praxe.

Abraço!

Solange Maia disse...

Sábio, né Filipe ?
As vida tem dessas lições... ainda bem !!!
Você é uma delas para mim... vir aqui é sorver o BOM da vida !!!
Você é especial.

Um beijo carinhoso,

Solange

http://eucaliptosnajanela.blogspot.com

Pedro Antônio disse...

Lindo blog! Fantástica a imagem do cabeçalho!

Adorei os textos, principalmente este do menino. A sabedoria nasce com a gente. É. Pelo menos, eu acho!

Abração.

Pedro Antônio - A TORRE MÁGICA

Andréia disse...

esse menino é esperto hein...

Moça do Fio disse...

É, algumas pessoas não precisam estudar para saber. Simplesmente, sabem e vivem bem com este saber.

O menino conquistou-me.

Beijo.

Flá. disse...

Tempo que eu navegava pelos blogs da minha vida. Sorte que comecei por aqui, Filipe. Porque sempre me impressiono com o jeito que você termina suas crônicas. Ainda tenho muito a aprender olhando seus textos.
Foi um prazer, realmente.

Um abração! :*
e o show do teatro mágico? acabei nem comentando com você depois!

Nasca™ disse...

voltei aqui pra dizer que andei falando do teu texto numa conversa com meu pai haha. deixei meu menino escapar.. abraços.

Paulo Braccini disse...

a sabedoria vem pela intuição aliada às experiências de vida e não pelo mundo acadêmico. perfeito este seu relato. parabéns pelo blog. voltarei sempre...

I.P.A. disse...

resposta melhor ele não podia dar.

I.P.A. disse...

mas só por que ele fala isso não quer dizer que ele sente isso... não é? "Ao homem foi dada a fala para que ocultasse o pensamento". O menino quer é ser homem. Eu só nao sei se ele vai viver até lá.