
Blusa nova, estilo diferente do usual.
Tênis novo comprado ontem.
Gel no cabelo.
Perfume.
Dentes escovados.
Relógio moderno.
Sorriso no rosto.
Nada mal...
O primeiro vem e diz: “Nossa, que espinha grande na sua cara!”

A saudade vem acompanhada do amor, ou, para ser mais cuidadoso, de uma afeição ou carinho por algo/alguém. É um sentimento atroz, vem de repente e traz uma fluência de emoções. Nesse instante, pode-se escutar uma música. Saudade é embalo e tem o seu tom. Invade corpo-alma-pensamento numa descarga de adrenalina irrefreável. Saudade é a parte ativa daquilo que não existe mais. É o belo que, incansável, tenta renascer por meio da lembrança. Ás vezes a saudade traz junto a tristeza – o vazio do não-haver. Saudade é um lugar. Deve-se ir ás vezes. Não é habitável. Quem vive de saudade não vive mais o belo – porque dele vem a lembrança. Saudade não tem tempo. Sobrevive enquanto há lucidez. Saudade é também um rastro humano, é a certeza do pulsar, da alma e do que habita o indizível. Não se explica, não se sabe, não se cabe; saudade se tem.
Saudade é abrir a janela durante o crepúsculo e ver o sol indo. É também a estrada sempre distante, sem destino, sem certeza. É o travesseiro pesado de lágrimas, o caderno rabiscado, o álbum de fotos, o baú de recordações.
Eu imagino a saudade uma senhora cega, de cabelos brancos, sentada numa cadeira de balanço. Ela faz um tricô que nunca acaba. O trabalho não é bem-feito. Há algumas imperfeições; não representa exatamente aquilo que deveria, não satisfaz. E agente fica ouvindo aquela música por um bom tempo, tentando descobrir a nota. Então vem a frustração: não conseguimos mais a nota; devemos nos contentar com a melodia. Deve ser por isso a tristeza: a decepção da lembrança imperfeita; a ânsia pelos detalhes perdidos ao longo do novelo de lã.