sábado, 3 de dezembro de 2011

O conto que esqueci


Ela fumava um cigarro atrás do outro. Essa é a imagem que me vem à mente. Tia Sandra. Usava sempre saias e o cabelo curto, mas não muito. Ficava sempre na porta da biblioteca. Porque dentro não podia fumar.


Éramos amigos. Daqueles que mal se falam, mas que freqüentam o mesmo lugar. De tanto eu ir à biblioteca, nos tornamos comuns um ao outro. Sim, comuns. Era como se ela já soubesse quando eu iria aparecer. Sempre nos intervalos das aulas e no horário da educação física, que eu matava.


Teve um dia. Chovia. Fui à biblioteca e lá estava ela, fumando. Cumprimentei com os olhos só. Ela respondeu com suas fumaças. Sentei à mesa. Ela chegou perto, sem o cigarro.


- Tenho um conto interessante pra você ler. – e colocou um livro grande. Bem grande, à minha frente, com a página aberta no lugar onde estava o conto.


Eu agradeci sem dizer. Sempre fui assim mesmo: mudo de palavras. Dentro, um mundo de palavras. E li o conto. Era bonito. Não me lembro mais da história, sei que era bonita. Daquelas que a gente lê, sorri ao final e guarda em qualquer lugar do peito. Pensei que aquele conto poderia ter sido escrito por ela. Por Tia Sandra. Mas não, havia o nome do autor ali em cima. E eu me desapontei um pouco. Só um pouco.


- Gostou? – ela perguntou quando me viu fechando o livro.


Eu disse que sim, que tinha achado legal. Sempre fui assim, também: uso expressões pobres que não expressam nem um tanto do que eu realmente sinto. Então ela sorriu, sei lá por que. Simpatia, talvez. Eu fiquei na mesa, observando-a de longe. Ela parecia tão atenta a tudo, embora carregasse um certo descuido no jeito de andar e estranhas maneiras que lhe tiravam um pouco dessa coisa humana que temos.


Perguntei se eu poderia levar o livro pra casa. Queria ler de novo. Ela respondeu que aquele livro não podia. E não deu motivos. Eu aceitei a resposta e me despedi. Escutei um ruído que talvez fosse sua forma de despedida.


Nos dias seguintes, eu passei a guardar uma ansiedade. Como se eu esperasse ela vir com outro conto pra eu ler. Não ocorreu. Talvez ela quisesse compartilhar só aquele. Talvez nunca mais ela tivesse lido algo que valesse a pena mostrar a alguém. Talvez ela realmente tivesse escrito aquele conto, e mais nenhum.


Ela fumava um cigarro atrás do outro. Tia Sandra das saias, do cabelo curto. Do conto no dia de chuva. Conto bonito que esqueci.



[8 de junho de 2009]

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Daquilo que sabemos ser


É doce sua maneira de falar das flores, do céu e das coisas simples às quais ninguém dá importância. Eu recebo suas palavras com um sorriso dormente, que insiste em me dar papel de bobo. Sou bobo. Porque ninguém te percebe, como eu.

Assim, de longe, vejo duas dúzias de borboletas se enrolando em seus cabelos. Sua presença entorna pó de candura e eu prevejo duas eternidades ao seu lado. Seu jeito meio romântico, essas fitas coloridas, a saia rodada e o cabelo em tranças, seus olhos dançando valsa, suas mãos apertando meu peito. Peito que dói, de tanto sentir.

Você pega meus dedos, em um ato próprio de quem quer me contar alguns segredos. Despeja com os olhos algumas ternurinhas que eu saio catando, enquanto penso em recitar juras de amor. E que você me jure exageros, impossibilidades, loucuras, pra eu te chamar de muito louca, de muito minha e te propor meu melhor amor.

Confessaria que, antes de você me notar, eu já te percebia nos braços de outros. Guardei todos os seus sorrisos na minha caixinha de lembranças, busquei informações detalhadas a seu respeito, de sorte que eu sabia até o horário do seu primeiro ônibus. Eu queria mesmo era só te ver de longe, pro meu coração ficar apertado de saudade.

Usei meus melhores jeans, meu tênis novo e meu perfume importado. Criei esbarrões, pra que você sentisse parte de mim, em você. Decorei seus vestidos e concluí que você fica mais linda quando veste vermelho. O que houve, porém, foi que você me descobriu com um olhar distraído.

Depois, nossas tretas. Eu tocando seus pés, por debaixo da mesa. Nossos risinhos calados e a certeza petulante de que não havia lugar tão lindo pra caber o nosso amor. Você passava a me destrinchar em música, me fazia versos, me prometia uma serenata moderna: você na sacada, cantando pra mim, lá embaixo.

E as nossas noites insones, você passando a mão nos meus cabelos, arrancando de mim suspiros manhosos e um pedido piedoso: que todas as suas dívidas comigo fossem pagas em cafunés. Então, cansados das palavras e enrolados no cobertor já descorado de tanto ouvir nossas pieguices sobre amor, fazemos um voto de silêncio. A lua atravessa nosso quarto e seus olhos, empapuçados de uma esperança bonita, provocam minha insensatez repentina.

Seguimos de mãos dadas, nas avenidas sinuosas que nos contornam. Você para, vez ou outra, pra pedir um café ou um chá gelado. Respiramos e seguimos. Sempre fomos juntos. Sempre fomos um.

Caminhada serena, essa nossa. É que não vivemos de outra coisa, que não de amor.