domingo, 9 de agosto de 2009

Mil vezes: te odeio


Odeio você estar em todo canto, em todo sotaque que escuto, em todo cabelo cacheado – agora nem tanto – e ter que me perguntar “será que é ela?”. Odeio você sempre tão cheia de doenças, sem aceitar minhas preocupações e mudando de assunto, despistando seus dramas particulares. Odeio sua falta de coragem em me telefonar, mesmo tendo todos os bônus do mundo. Odeio você não ter escutado o seu telefone tocar quando eu me muni de coragem pra te dar um alô.


Odeio quando você prolonga sua estadia em mim, mesmo depois de uma conversa azul-vermelha de mil duzentos e cinquenta e sete minutos. Odeio seus torpedos bonitos que me fazem ser brega nas respostas. Tão brega que desisto de responder. Odeio você escrever bonito desse jeito e me arrancar o fôlego quando usa sua poesia em qualquer tom. Odeio também saber que você escreve dez vezes melhor do que eu, mas nunca reconhece e fica se fazendo de chata, desfazendo do próprio talento.


Odeio quando você fala palavrão porque acha engraçado, embora não goste. Odeio você odiar minha repulsa por essas palavras erradas que eu não tolero mesmo. Porque você é poesia. E só. Odeio tanto, mas tanto, quando você não me deixa falar do quanto gostei de um livro ou de um filme e briga comigo depois, dizendo que perdeu o gosto. Odeio pensar que nunca tomaremos coca-cola juntos porque você é insuportavelmente saudável. E também que só tomaremos sorvete de cajá, pelo jeito.


Odeio seu lirismo, sua doçura impregnante, seus jeitos e suas palavras tão suas. Odeio, às vezes, me ver parecido com você e pensar que você tomou espaço demais em mim. Mas depois eu gosto. Gosto desgostando. Odeio você ter se afastado de forma brusca e insana, arrebentando todos os meus poros e me deixando um vácuo por meses que foram eternidade. Odeio ainda mais você ter voltado com a cara mais lavada do mundo, os cabelos baixos e as unhas vermelhas, me falando de esperanças novas, fazendo ressuscitar em mim algo que eu não queria.


Odeio você ter controle sobre meus sentimentos, me deixando atado quando aparece sorrateira em forma de neblina e me arranca pensamentos ousados. Não que eu realize tais pensamentos. Até porque, você me completa de forma tão eficaz que por vezes duvido ser você real. Odeio você rir da minha cara quando digo que você foi inventada e que é extensão dos meus desejos. E então eu começo a fingir ser alguém que não sou pra você achar que não me conhece. Você me descontrola e odeio.


Odeio quando você fala junto comigo a mesma coisa e me chama de previsível, sem esquecer que você também é. Odeio você nunca ter me forçado a gostar de Los Hermanos, que eu até passei a escutar mais frequentemente por sua causa. Odeio escutar Por onde andei sem poder te dar um abraço demorado e cantar junto com você essa música que se fez nossa quando nossa euforia era trocar e-mails com nomes de músicas. Odeio não receber mais cartas suas cheias de cola. E sua letrinha minúscula linda. E sua eternidade para me contar as coisas desinteressantes que, narradas por você, se tornam agradáveis.


Odeio você me encher de perguntas, me encurralando, me espremendo até eu ficar roxo e me fazer falar um monte de bobeira, só pra me livrar de você. Odeio querer você cada dia mais perto e não saber dizer isso da melhor maneira. Odeio ser tão besta diante de você e me sentir inerte diante das suas declarações doces e da forma como escreve meu nome, em miniatura.


Por fim, o que mais odeio é você me listar em tópicos que arrancam de mim sorrisos e lágrimas. Em réplica, tento expor você em argumentos odiáveis. E acabo descobrindo, então, que é amor. Porque eu não te odiaria com tanta precisão.


Coisas desse nosso encontro de palavras que se transforma em estalos no céu da boca. Notas de nós dois.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Quando você se foi


Quando você se foi, era noite fria de um junho comum. Era frio em mim que, em prenúncio duvidoso, fui me despedindo de forma razoável, sem me deixar doer. Eu quis abanar a mão e escoar em você um abraço interminável, daqueles que a gente se fecha um no outro, sem pedir permissão.


Quando você se foi, eu parei estático na soleira da porta, assistindo seu cabelo ser levado pelo vento a cada trejeito. Você, de costas, não viu minhas lágrimas traiçoeiras, meu nó na garganta, meus lábios que se abriam pra cantar uma canção. Aquela que nunca gostamos de ouvir.


Depois, refiz em mim cenas que me martirizaram. Recolhi-me em lembranças que te trouxeram de volta, pra perto, pra dentro, e me entornei de saudades doídas. Quis de novo nossas conversas na madrugada, quando a lua virava qualquer coisa muito clichê e a gente brincava de colocar apelidos nas pessoas que iam passando pela rua. Quando batia o vento frio, você se encolhia pequenina, em meu ombro, e me abraçava de um jeito que eu ficava desconsertado, sem saber se era hora de te beijar.


Nos nossos momentos de angústia, você me trazia um travesseiro e um chocolate quente em uma xícara grande que mal cabia na minha mão. Então, me contava histórias engraçadas do seu tempo de infância e a gente ria, como se a tristeza pudesse ser escondida. Nos seus lábios, as palavras pareciam guia de estrelas, chamariz de sossego, água mansa. E seu jeito de piscar duas vezes antes de cada espirro, seu desajeito com as garrafas térmicas e sua dança estranha que coreografava sorriso torto, em mim.


Quanto você se foi, resolvi que não iria junto, não. Precisei ver você indo pra ter a certeza de que era pra ser assim, desde sempre. Que as pessoas que se gostam não ficam juntas necessariamente. São coisas distintas, apesar de conexas. Deixei você ir, mas quis esperar você virar a esquina, porque minha esperança era que voltasse seu sorriso, dizendo que não ia acabar assim, não. Que seríamos. Que haveríamos. Que iríamos juntos, mas separados.


Vai, e toca sua música pras pessoas que merecem te ouvir. Encontre seu par, seu pôr-do-sol, descanse sua poesia em qualquer canto, em qualquer quanto. Eu escreverei. Não mandarei nada, prometo. Mas escreverei. Porque sempre fomos assim: as palavras nos acompanham em torrente. E eu só me desvencilho delas quando as cuspo no papel.


Ainda que a coragem me falte, meu recado: fiz de você retrato. Colei um pedaço em mim.