quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Talvez

João não se dá conta da vida que leva.
Compra o pão de manhã, passa o café.
Lê o jornal, dirige até o trabalho.
Deseja o boteco a semana toda.
Bebe a cerveja no sábado.
Beija a esposa, acalenta os filhos.
João não quer ser artista.
Nem quer ser brilhante.
Quer ter uma vida como qualquer outra.
A verdade, a verdade mesmo.
É que se João visse aquelas azaleias.
Brotando no seu jardim.
E chamando a atenção das abelhas e mariposas.
Talvez.

Talvez João fizesse um poema. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Poema Ocupado


Queria eu falar de coisas sérias
Da política, do preço do feijão e da alimentação das andorinhas.
Queria eu acender um cigarro
Pra falar das pinturas do Metropolitan e das teorias de Lacan.
Acordar inspirado em Neruda
E dormir, cochichando Camões.
Queria eu mapear meus ancestrais,
Descobrir parentes interessantes
E não mais bocejar nas reuniões de família.
Ter a coragem de dar uma cusparada naquele pangaré
Metido a mangalarga marchador.
Queria eu conversar sobre assistencialismo e políticas públicas
Entre dois copos de caipirinha e uma porção de mandioca.
Queria eu colocar a mesa de jantar na varanda
Pra dialogar com a sequoia imaginária que tenho no meu jardim.
Não evitaria, por óbvio, o tiziu que mora na minha marquise
Que é o principal teólogo, nas manhãs frias em que eu acordo
Dias em que não sei, ao certo, onde encontrar Deus.
Queria eu colocar duas fichas no orelhão
Para falar com a Dona Cida,
Ouvir as histórias da gente que não fala bonito
Mas que ama bonito, como ela mesma diz.
Queria mesmo era pôr o pé no chão,
Desfazer o nó da gravata
Desabotoar o colarinho e desligar a tevê.
Queria.
Não fosse a fatura do cartão de crédito
E a conta de energia.
A pagar.