sábado, 3 de agosto de 2013

Terapia


Foi a conta de eu pagar meu lanche na Colombo e eu logo a vi passando pela rua, despropositadamente. Eu a persegui com os olhos, depois com os ombros, depois com o corpo inteiro. Segui seus passos numa discrição de um elefante. Eu estava afoito, nervoso, suando pelas têmporas. Naquela ambição, acabei esquecendo o troco e a ligação que eu precisava fazer para o médico. Era só ela que eu queria. Tocá-la por detrás para que ela, surpresa, girasse em minha direção com um sorriso que fosse se abrindo à medida que ela detectasse em mim traços de um romance quase-pronto. Eu não sei o que é isso, não, Aurélio. Eu tenho dessas coisas: fissura, urgência, supetão. Minha pretensão era chamá-la para tomar um sorvete de duzentos sabores, impor-lhe um beijo muito gelado que travasse a língua no céu da boca, apertando o meu peito contra os dela pra depois deixar cair algumas sacanagens em seus ouvidos. Ela dobrou a esquina e a minha coragem dobrou junto. Apressei os passos, limpei o suor da testa, tentei recitar rapidamente um poeminha que eu havia escrito para momentos como aquele. Era preciso abordá-la com um poema. Naquele instante, naquele exato instante, eu notei uma folha de árvore cair sobre a cabeça dela. Folha miúda, seca, inexpressiva. Fiquei aguardando para ver como ela haveria de tirar o negocinho dos cabelos. Não tirou. Sequer notou que algo havia caído sobre ela. Continuou sua marcha, com um enfeite pouco amistoso agarrado nos lindos cachos. Minhas pernas, então, travaram. Uma pena, pensei. Uma pena ser tão linda, mas tão distraída. Dei meia volta e passei na Colombo pra buscar meu troco. Em tempos de crise não é bom perder nenhum tostão, né não, Aurélio? 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Pra você saber

Eu queria te dizer que a vida é muito curta pra gente brincar de bem-me-quer-mal-me-quer. Que, antes de buscar a certeza de qualquer sentimento, a gente tem que ter a vontade de senti-lo, de tê-lo pulsando dentro do peito, ardente. Que antes da meia-noite todo mundo se posa de maduro e sensato, mas ao encostar a cabeça no travesseiro, todos os medos insistem em retomar a visita da noite anterior.

Eu queria te dizer que eu nasci amando. Que eu só sei fazer isso: amar. E que eu não acredito em amores diferentes: amor, pra mim, é igual em qualquer direção. Que eu nunca te amei de verdade porque eu nunca li o amor nos seus olhos. A gente não ama sem querer, como você já supôs em uma conversa de botequim. A gente ama é no dia-a-dia, quando o som dos passos da outra pessoa, chegando devagarinho, é capaz de beliscar qualquer ponto da alma, numa insensata alegria. A gente descobre que ama quando não faz mais sentido viver sem. Os ares pedem aquela pessoa, os risos são daquela pessoa, os pensamentos furtados, durante uma reunião de negócios importante, são daquela pessoa. O amor é a certeza quase absurda de que não é apenas o coração que chama pelo outro. É o corpo inteiro que funciona como imã, zoom, capaz de buscar a melhor resolução. Tudo se torna extremamente possível.

Eu queria dizer que eu gostei de você, você gostou do João, que gostou da Amanda, que gosta do José. Ninguém gostando reciprocamente de ninguém. E que vai ser sempre assim. Porque a gente vai gostando até descobrir o dedinho torto do pé direito ou a letra de garrancho ou a gagueira no momento de ansiedade. Gostar é pouco, é rápido, é só simpatia. Das vezes que busquei um mar profundo em você, só consegui colocar os pés na margem, deixando meu tornozelo enxuto e meus pés tocando pedrinhas pontiagudas. Isso nunca foi suficiente. Talvez, por isso, eu não tenha insistido em suas profundezas e, talvez pela minha timidez em ir fundo você tenha se aberto pouco. Eu só queria te dizer que não gosto desses jogos. Eu nunca sei jogar e, quando faço isso, sem saber, sempre derrubo as peças do tabuleiro.

Eu só queria que você soubesse que eu procurei um sorriso que não desbotasse, um abraço que não me largasse, um gesto macio que me fizesse querer escrever poemas de madrugada e decorar as letras de música que falassem de nós dois. E que, a tardinha, quando o sol viesse se pôr na nossa janela, eu pudesse te buscar para tomar um chá gelado e, segurando suas mãos, dizer que meus compromissos todos seriam você.


Eu só queria que você soubesse que você me devolveu a liberdade. E que você, um dia, me encontrará na fila do cinema sem a menor pretensão de ser seu. De te fazer ser minha. Porque o amor, infelizmente, não aconteceu pra nós.