segunda-feira, 12 de abril de 2010

O velho


Às vezes eu converso com esse velho de cabeça branca, sentado na cadeira de balanço e que não para de dizer que a vida é muito boa, sim senhor. Faço cara de valentia e digo que a vida não é boa tão assim. Ele sorri pra mim e me acha muito imaturo. Mas ele não se faz de superior, não. Diz que a gente sempre cuida de aumentar aquilo que é ruim, porque o bom e o ruim aparecem em proporções exatas, mas a gente gosta é de aumentar um e diminuir outro. Não concordo. Fico olhando praquele movimento sereno do corpo que vai pra cá, pra lá, num balanço de quem já cansou de ser homem, quer virar estrela logo.


Eu pergunto se o amor existe, se é essa coisa doida de bonita que as pessoas dizem sentir. Ele para e coloca a mão na testa, como se procurasse por alguma febre que demorava por vir. Eu espero por uma resposta, mas ele só me olha como se catasse todos os meus segredos. Eu torno a perguntar e ele resmunga. O amor não é de sentir, ele deixa escapar, meio a contragosto. Tem gente que espera sentir o amor a vida toda, mal sabe que o amor chegou há dois milênios. Não acho nada daquilo muito sensato e digo que conheci uma mulher sem vocação para o amor. Conto que ela me despejava doses diárias de tristeza, de forma que eu ia murchando, murchando.


O velho balança a cadeira e eu acho que aquilo é um gesto de anuência. Penso que ele talvez já tenha sofrido nas mãos de uma desvocacionada. Ele volta a repetir que a vida é muito boa, sim senhor. Eu me levanto, dou boa noite e me deito pensando em como a vida, ao fim, parece fazer mais sentido. O velho entra no meu quarto e diz que vai ficar sentado na beira da cama. Eu digo que sim, que ele pode ficar onde quiser. Esse velho sou eu.


segunda-feira, 29 de março de 2010

Soraya


Era noite de concerto e o salão nobre estava repleto de admiradores de Chopin. O pianista dedilhava o piano como quem faz uma massagem em uma flor. De longe, eu via Soraya que se mantinha boquiaberta, olhando estatelada pro moço que incorporava as notas, os sons, os ritmos e transmitia a música a quem quisesse senti-la.


Soraya, que há dois meses atrás odiava música clássica. Que se perdia nas mesas de bares, buscando um carinho entre as pernas. Moça dos palavrões, da saia justa provocante, dos cabelos em cachos volumosos que, vez ou outra, faziam volta em seu indicador. Conheci-a na minha sala de estar, quando cheguei em casa de madrugada, com a certeza de que a encontraria vazia. Soraya estava nua, tocando meu piano como quem esfrangalha uma galinha.


Como ela não olhou para mim, pigarreei uma. Duas. Três vezes. Ela parou o som arrítmico que produzia, crente de que aquilo era mesmo arte.


- Oi. – eu disse em tom de desaprovação.


- Oh! – ela exclamou, tirando os dedos do teclado, nem se lembrando da sua nudez. – Eu estava apenas brincando, sabe? Gosto do som disso, das coisinhas pretas e brancas. Tem um som bacana. Será que um dia eu aprendo a tocar? Você toca?


- Quem é você?


- Oh! – ela exclamou de novo, como quem se desculpa por uma falta. – Eu sou namorada do Sérgio. Prazer. Estou nua porque não sabia que teria mais alguém na casa, espero que não se importe. Quanto ao piano, me perdoa.


- Onde está o Sérgio?


- Está dormindo. Esperei ele dormir para poder vir tocar. Quer dizer, eu não toco, sabe? Mas eu gostaria muito. Muito mesmo. Você toca?


- Esse piano era do nosso pai, ninguém toca aqui em casa. Olha, eu preciso dormir, me dê licença.


- Sérgio disse que você toca. Tão linda essas coisinhas pretas e brancas, não acha? Parece um monte de zebrinha.


- Se chamam teclas. E zebra não é uma comparação das melhores. Presumo que você esteja bêbada e que não seja namorada do Sérgio.


- Tá, nós nos conhecemos hoje. Mas eu gostei muito dele, viu? Muito mesmo. Será que eu posso voltar outras vezes pra poder tocar as zebrinhas? Eu amei tanto isso: o som, sabe?


- O piano foi vendido. Virão buscá-lo amanhã. – eu menti, imaginando aquela mulher nua na minha casa, toda noite, batucando meu piano.


- Oh! – era mesmo a moça das exclamações. Estava visivelmente chateada. – É muito caro? Eu poderia pagar?


- Mutíssimo caro.


- Mais de um milhão?


- Mais de dois.


- (...) – ela disse um palavrão.


- Eu vou deitar, se me permite. – avisei.


- Você conhece alguém que toca? Eu amaria escutar alguém tocar. Eu acho que sou tão boba, às vezes. – ela riu. E eu achei ela muito boba, todas as vezes. – Imagina só, gostar de piano, devo ser muito boba mesmo.


- Você nunca escutou ninguém tocar piano? – arrisquei.


- Oh! Claro que não. Nunca, nunquinha. Eu juro. Mas eu acho que deve ser uma coisa absurdamente bonita.


- É sim. – tive que concordar.


- Você não me disse se conhece alguém que toca. Acho que estou viciada, se é que me entende.


- Entendo sim. Vai haver um concerto daqui a dois meses. Deixa seu telefone, te separo um convite.


Ela bateu as mãos e os pés em ritmo frenético, ficou entusiasmada com a ideia.


- Você é mesmo um amorzinho. – me abraçou e estalou um beijo na minha bochecha. – Brigada, tá? Brigadíssima.


- Ok, tudo bem. – disse e fui dormir. Mulher louca. Parecia desenho do Sérgio, criação de uma mente perturbada.


Lá do quarto, continuei ouvindo ela insistir nas zebrinhas. O som era mesmo de dar desgosto. Mas era uma entusiasta e eu não tiraria o prazer dela.


Fato é que Soraya, em seu desequilíbrio patente, escutava Chopin sem respirar, sem tirar os olhos do pianista que se apresentava. Tive medo de que ela pulasse no palco e beijasse o artista, assim como me beijou na noite em que nos conhecemos. Mas ela não fez assim.


Ao final do concerto, quando eu tentava sair sem que ela me notasse, escutei meu nome sendo gritado a alguns metros atrás. Era ela. Foi se desvencilhando das pessoas, os olhos eram cegos de tanta música. Ela estava em transe.


- Eu amei, cara. Eu amei essa coisa toda. – e me beijou, agradecida.


Antes de ir embora, ela segurou forte as minhas mãos. Percebi que tinha as unhas pintadas de branco e preto. Ri como quem acha graça de uma piada. De uma forma ou outra, ela carregava as teclas nos dedos. Não sabia tocar, mas queria. As coisinhas, como ela mesma disse. Ou zebrinhas, pra quem preferir.