Antes de você fechar a porta, quero que saiba que foi bonito aquele nosso passado cheio de afinidades. Era ver você atravessar a rua em minha direção e meu coração escapulia pra todos os cantos do corpo. Nossa amizade era tal qual um namoro, mas os sentimentos não eram estes, a gente sabia bem disso.
Suas cartas enfeitadas de poesia e papéis coloridos era minha essência. Você me destrinchava, narrava seus sentimentos como se eles fossem muito meus. E sua letra redonda, caprichada; seus versos acompanhados de uma fidelidade e autenticidade que me abraçavam por inteiro. Conhecer você era ter surpresas boas todos os dias.
Dos nossos choros eu lembro bem. Você segurando a minha mão e eu dizendo que as coisas iam se ajeitar. A lua não perde o encanto e você nunca perdeu seu jeito de donzela. Trata-se dessa sua cumplicidade ímpar com as coisas sublimes; é como se você tivesse descido do céu amparada por dois ser afins; seu coração é ritmado.
Bonita quando você roubava uma flor qualquer e prendia no canto dos seus cabelos vermelhos. Seu charme era fazer das singelezas coisas eternas que eu ia carregando no peito. Sua poesia se renovava. Seus abraços apertados e demorados, que tanto me deixavam tímido, também me importunavam com a certeza do gostar. É que nunca houve dúvidas: éramos colegas desde antes do pôr-do-sol.
Antes de você fechar a porta por inteiro, quero que escute meu sussurrar já cansado. Há coisas que a gente não entende, bailarina (lembra das suas danças?). Há coisas que enchem o travesseiro de preocupações. Mas há também nossos sonetos escritos a uma mão. E esse lirismo todo ainda perdura como um convite, como um pulsar de sentimento que ainda existe.
Você nunca foi embora. E nunca irá. Por mais que se despeça.