sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Entreaberta


*Para Luisa

Antes de você fechar a porta, quero que saiba que foi bonito aquele nosso passado cheio de afinidades. Era ver você atravessar a rua em minha direção e meu coração escapulia pra todos os cantos do corpo. Nossa amizade era tal qual um namoro, mas os sentimentos não eram estes, a gente sabia bem disso.


Suas cartas enfeitadas de poesia e papéis coloridos era minha essência. Você me destrinchava, narrava seus sentimentos como se eles fossem muito meus. E sua letra redonda, caprichada; seus versos acompanhados de uma fidelidade e autenticidade que me abraçavam por inteiro. Conhecer você era ter surpresas boas todos os dias.


Dos nossos choros eu lembro bem. Você segurando a minha mão e eu dizendo que as coisas iam se ajeitar. A lua não perde o encanto e você nunca perdeu seu jeito de donzela. Trata-se dessa sua cumplicidade ímpar com as coisas sublimes; é como se você tivesse descido do céu amparada por dois ser afins; seu coração é ritmado.


Bonita quando você roubava uma flor qualquer e prendia no canto dos seus cabelos vermelhos. Seu charme era fazer das singelezas coisas eternas que eu ia carregando no peito. Sua poesia se renovava. Seus abraços apertados e demorados, que tanto me deixavam tímido, também me importunavam com a certeza do gostar. É que nunca houve dúvidas: éramos colegas desde antes do pôr-do-sol.


Antes de você fechar a porta por inteiro, quero que escute meu sussurrar já cansado. Há coisas que a gente não entende, bailarina (lembra das suas danças?). Há coisas que enchem o travesseiro de preocupações. Mas há também nossos sonetos escritos a uma mão. E esse lirismo todo ainda perdura como um convite, como um pulsar de sentimento que ainda existe.


Você nunca foi embora. E nunca irá. Por mais que se despeça.

sábado, 6 de setembro de 2008

Essência


Bonito é o azul com o qual pintas o meu céu. Escolhes cânticos nascidos de notas puras e os coloca em meus lábios sujos. Depois me toca com luz e me faz passear em verdes pastos onde provo de água límpida que me dás de beber. Sinto um rio infinito de correntes vivas transpassar todo meu corpo e estrelas de mil pontas nascem em minhas veias, trazendo-me regozijo sem igual. Teu tocar me fortalece e me faz andar sobre as águas. Se começo a me afogar, estende-me as mãos e um sorriso. Tu sabes meu nome e meus ensaios. Sabes meus sonhos e planos imperfeitos. Tão pequeno sou na palma de tua mão; queres que eu fique por perto e me sela. Minha língua, inquieta, faz ruídos sobrenaturais. Meu coração acelera, bombeando sangue por todo o corpo que se enternece ante tanta majestade. Um frio gélido percorre a altura da cabeça e as lágrimas descem copiosamente. É tua água que jorra.


Vejo-te poeta quando desenhas a lua bonita no céu. É tua forma de declarar parte do teu amor. Porque um dia nos deste toda a poesia desse mundo, mas disseste: “Mantenha a minha poesia em seu peito”. E ela ainda toca no coração dos apaixonados.



“Porque, onde está o vosso tesouro,

aí estará também o vosso coração.”

Lucas: 12:34




Tem texto meu lá em Paquetá!