
Ela resolveu que iria escrever um romance. Ele não namorava a televisão? Pois ela teria o computador como amante. Faria o possível para sentir-se suprida. Levou algum tempo para substituir os carinhos e as palavras dóceis pela companhia dos personagens fictícios que habitavam sua mente. Com o tempo, sentiu-se mais humana, capaz de criar, fazer renascer a arte dentro de si.
O marido foi tomado por um ataque de ciúmes doentio. Chegava em casa perguntando pelo jantar e tinha que se assentar sozinho na mesa porque a mulher, agora, era uma escritora. Começou a brigar, fez ameaças, contou mentiras. Nada deu certo. Ele percebeu o descaso da mulher, percebeu que a havia perdido.
No outro dia, chegou com um anel de brilhantes. A mulher deu um sorriso e selou o marido com um beijo de gratidão. Ficou só nisso. Logo ela voltou pro seu mundo fictício, digitando afoitamente o teclado do computador.
No segundo dia, ele veio com uma caixa de bombons de avelã – os prediletos dela. A esposa provou um, disse que era muito bom e pediu ao marido que guardasse a caixa no criado mudo. Depois disso, ela voltou a escrever.
No quarto dia, o marido anunciou que comprara uma viagem para o próximo mês. Iriam a Salvador aproveitar um pouco o verão. Ela reclamou. Disse que no próximo mês não dava porque estaria escrevendo os últimos capítulos do romance.
O marido, por fim, desistiu. Viu que estava de mãos atadas e que a mulher estava absorta em seu novo mundo. Passado alguns dias, começou a lamentar. Lembrou-se do começo do namoro, quando eles iam passear na pracinha e tomavam sorvete até a tarde cair. Viu que perderam todo o romantismo e toda esperança que habita os olhos dos apaixonados.
Decidido, o marido tirou a mulher de frente do computador e agarrou-a pela mão. Disse a ela que tinha algo muito importante para mostrar. Ela foi, resignada. O marido levou-a á praça do primeiro beijo e disse, como da primeira vez, o quanto ela era linda. Depois, arrancou uma maria-sem-vergonha e entregou-lhe jurando amor com os olhos. Ela se rendeu.
